LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de julho de 2007
André Amorim<br>Equipe da Folha 
Ontem foi a última vez. Agora é pra valer. Sei que falei a mesma coisa na semana passada e na outra ainda, quando usei todos os dias. Mas agora acabou mesmo. Cada vez que eu comprava outro pacotinho (cheguei a comprar 2 no mesmo dia) logo vinha a sensação de culpa, mas que era abafada pelo seu efeito. Delicioso a princípio, mas que cobra um alto preço pelo seu uso (e abuso). Conheço algumas pessoas que após consumir grande quantidade ficam indispostas, sem nem respirar direito. Em alguns casos de superdose é preciso ficar deitado até passar suas reações adversas.
Mas agora é de verdade, acabou mesmo. Quem determinou foi a Prefeitura de Curitiba. O pessoal até tentou prorrogar por mais tempo, mas não adiantou, esta terça-feira foi o último dia da Feira do Pinhão da Praça Osório. Agora vou ter que enfrentar uma longa abstinência, alguns meses talvez, dependendo das condições climáticas.
Assim como em alguns outros grupos de dependentes, eu deveria me levantar, dizer meu nome, e admitir meu problema com o pinhão. Mas me faltam as forças morais necessárias, só penso em conseguir mais um quilo, e depois outro e mais outro. Quando começo a descascar, não paro mais, paneladas inteiras seguidas por um desconforto abdominal, falta de ar e até alguns episódios de depressão.
Não posso parar, não até que tenham acabado todos eles. Certa vez foram necessários três homens para me segurar, pois eu queria beber a água marrom que restara na panela de pressão. Mas desespero mesmo vem no final de cada safra, quando eles começam a ficar escassos. Saio pela rua catando cada pequeno exemplar que encontro embaixo de uma araucária. Saio no braço até com a gralha azul, ninguém fica no meu caminho quando o assunto é pinhão.
Como acontece todos os anos, em breve serei forçado a conter meu ímpeto glutão, aguardando até o próximo inverno. Já preparei a camisa de força e o balde de água fria.


