LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de junho de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
No dicionário Aurélio, ''cumprimentar'' significa saudar, louvar, felicitar. Geralmente o cumprimento é uma coisa que se troca entre as pessoas. Se não for assim, pode gerar traumas sociais de proporções históricas.
Algo semelhante a um infarto do miocárdio se opera no peito do curitibano quando este não recebe resposta ao cumprimentar um vizinho. Ao ser confrontado com a indiferença (que pode ser motivada de surdez, desconhecimento da língua ou pura distração), o indefeso morador da capital paranaense sente no esôfago o gosto do desgosto, ou algo que o valha.
Penso nisso, pois apenas algo como um medo atroz de não ser cumprimentado poderia explicar a paralisia verbal que o curitibano sente ao encontrar no shopping um conhecido distante ou mesmo um conhecido próximo. Trata-se de uma situação interessantíssima, ambos (se forem os dois nascidos na capital das araucárias) ''quaaase'' se cumprimentam, mas o medo da indiferença do interlocutor à sua frente os impede, então eles seguem em silêncio cada um para o seu lado.
Não pense o estimado leitor que se trata de falta de educação, ou miopia, é medo mesmo, medo do papelão de deixar no ar um ''alô'', ou um ''tudo bem?'' sem resposta. Se isso seria humilhante para um carioca ou um baiano, que são povos expansivos, imagine para o pobre curitibano, que não tem as mesmas ferramentas sociais.
É por conta destas e outras que este espécime do Sul do país prefere não trocar cumprimentos. Afinal, se é uma troca, temos que ter garantias de que o negócio vai sair direitinho, senão não dá certo. Para garantir a resposta do seu ''olá'', o indivíduo que se criou na capital ecológica aguarda primeiro ser cumprimentado para depois cumprimentar. Isso explica porque dois curitibanos natos passam um pelo outro sem emitir qualquer sinal de comunicação. É uma questão de desconfiança.


