Zapeando pela madrugada, deparo-me com a reprise de um destes concursos de miss que existem às pencas por aí (Miss Universo, Miss Mundo, Miss Terra). Entre o desfile de uma e outra candidata, apresentações de bandas desconhecidas e tours pelos países de origem das moças, reflito sobre a relação das mulheres com o corpo feminino. Apesar das participantes serem um colírio para olhos masculinos, não consigo recordar de nenhum homem que tenha aguentado assistir um concurso como esse até o final. No máximo conferem um ou outro ''corpitcho'', depois mudam para o futebol ou para o boxe. A mulherada, por outro lado, acompanha com entusiasmo cada fase da competição, vibrando com as candidatas preferidas, comentando seus atributos e os defeitos das rivais com o mesmo entusiasmo.
Homens não têm tamanho poder de análise. No máximo conseguem recordar um belo traseiro ou outro atributo que lhes encante, no geral o que vale é o ''conjunto da obra''. Talvez por isso não lhes incomode tanto suas próprias imperfeições, como a pança saliente ou o redemoinho no centro do cocoruto, eles não enxergam detalhes, e sim o todo, bem diferente delas, cujo poder de ''decupagem'', acaba lhes afastando da visão integral do próprio corpo.
Quando ouvimos uma mulher reclamar, nunca se trata do conjunto, é sempre o detalhe que se sobressai: o nariz de batata, a franja escorrida, a unha mal feita. Certa vez encontrei uma moça que via imperfeições graves no próprio calcanhar. Outras são dotadas de uma visão microscópica capaz de notar qualquer falha na cutícula do dedo mindinho.
É esse olhar apurado que faz com que elas demorem horas na frente do espelho. Pois sabem que qualquer falha poderá ser amplamente explorada por suas rivais, que certamente não perdoarão a má escolha do esmalte, do penteado ou o brinco que não combinou.
Que vida dura destas mulheres, sempre atentas aos olhares analíticos femininos. Sempre à berlinda de comentários estéticos e em constante estado de alerta visual.

mockup