Anteontem li a notícia de que o ministro japonês da Agricultura cometeu suicídio após ter sido acusado de envolvimento em um escândalo de corrupção. Ele nem sequer tentou se defender, e se matou algumas horas antes de uma sessão no Parlamento na qual deveria apresentar explicações. Ontem me deparei com outra notícia que me chamou a atenção pelo tema em comum com a primeira. O ex-diretor da administração chinesa de controle de alimentos e medicamentos foi condenado à morte pelo mesmo motivo que levou o japonês a tirar a própria vida - a corrupção. O chinês teria, entre outras coisas, aceitado suborno de laboratórios farmacêuticos.
Que realidade tão distante da nossa, não? Enquanto para os orientais ter o nome envolvido em escândalos de corrupção é vergonhoso e implica em perda da honra (algo que eles realmente levam a sério), por aqui o assunto é tratado como uma coisinha à toa, que logo passa e que não é tão grave assim como estão dizendo. Vide o caso do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), denunciado esta semana. Ele já anunciou que não vai deixar o cargo.
É claro que eu não espero que os brasileiros envolvidos com corrupção saiam por aí atentando contra a própria vida, até porque isso não combina com a nossa personalidade tolerante, que releva sem muito esforço os erros dos outros e os nossos próprios. A questão é o quanto essa tolerância distorce nossa percepção de certo e errado.
Outro dia mesmo ouvi um aluno do curso de medicina contar com a maior naturalidade que aceita ''favores'' de certo laboratório para receitar aos pacientes que atende nos plantões os remédios fabricados pela generosa empresa.
Embora geralmente recebam destaque na imprensa as notícias sobre corrupção que envolvem algum ocupante de cargo público, a praga da falta de referência está por toda parte. E se por aqui o exemplo que vem à tona é o da tolerância cínica, não há de se esperar outra coisa. Acho que hoje em vez de ler o jornal vou comer um sushi.

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