LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Marcos Martins<br>Equipe da Folha 
Na rua, está parado o carro do sonho. Sonhos de vários sabores, pequenos, médios e grandes, e também feitos na hora sob encomenda do comprador, anunciados pelo estridente alto-falante. Encostada no muro, uma senhora de idade daquelas sem teto, que derrubam qualquer estatística governista de que o país está dando certo observa o porta-malas abarrotado de sonhos, as pessoas comprando. Ela, que poderia ser a minha ou a sua avó, não tem dinheiro, por isso só lhe resta olhar. Vestindo apenas uma blusa fina, a idosa fica encolhida, tentando espantar o frio e o vontade de degustar os doces.
Que tal a vida tivesse um carro desses a cada esquina. Mas não o de doces, os da vida. Que na pequena sacolinha branca o vendedor entregasse a casa nova, o carro zero. Que coubesse nela ainda saúde, segurança. Que houvesse espaço para a paz e um mundo melhor. O primeiro sonho pularia do carro imediatamente, mudando a realidade daquela senhora, alterando os olhos tristes, o semblante desanimado. Além da falta de um teto, a fome. Não qualquer fome. Mas o desejo de se comer uma coisa gostosa. Um luxo, que não faz mais parte da vida dela.
Dizem que sonhar não custa nada. Mas para ela, o som que ecoava anunciando um por R$ 1,50 e três por R$ 4 estabelecia um limite. E não a deixava esquecer que sonhos são, sim, impossíveis. Muitos da nossa vida. E para ela inclusive os de creme, goiabada e chocolate. Para deixar qualquer um que reclame da vida paralisado, em silêncio. Sentindo a verdade estalar na cara, qual um tapa de cena da novela das oito. Só faltaram umas tevês atrás, ligadas nos noticiários de navalhas, mensalões e sanguessugas. E a vinheta Brasil, sil, sil.


