No livro ''O Processo'', o escritor Franz Kafka (1883-1924), narra o estranho infortúnio que acomete o funcionário do banco Josef K. Certo dia, o Senhor K. é acusado por um crime que ele não sabe qual é. E por mais que tente descobrir, mais se vê envolvido numa teia de absurdos e burocracias. O livro foi editado postumamente em 1925, mas ainda hoje é possível perceber traços da realidade fantástica vivida pelo personagem nos pequenos fatos da vida moderna. Senti na pele outro dia quando tentei ligar para uma operadora de celular para relatar um engano. Minha fatura veio com um serviço cobrado indevidamente, que eu não tinha solicitado, e ainda por cima meu celular estava cortado sem motivo. Eu já havia pago a fatura e estava com o comprovante em mãos.
Depois de digitar alguns números, a atendente do outro lado da linha, pergunta: ''Boa tarde, senhora, em que posso estar ajudando?''. Bem, várias coisas, disparei, forjando simpatia. A primeira é que gostaria de solicitar o cancelamento de um serviço que não autorizei, a segunda é que meu telefone foi cortado indevid... ''Claro, senhora, vamos estar analisando sua situação. Só um minuto, por favor.''
Alguns minutos depois: ''Qual o motivo do cancelamento?'' Bem, eu não solicitei o serviço. ''Tudo bem senhora, mas para cancelar, é preciso saber o motivo do cancelamento, caso contrário não posso solicitá-lo.'' Então eu poderia saber por que estão cobrando o serviço na minha fatura sem eu ter solicitado? ''Senhora, trata-se de uma promoção, se a senhora não pedir o cancelamento, o produto continuará sendo cobrado.''
Ok, vamos pular essa parte pelo fracasso da empreitada e vamos para o segundo capítulo, quando tentei avisar que meu telefone estava cortado sem motivo. Dei detalhes, hora, local e forma de pagamento. E depois de minutos intermináveis na linha, a atendente me informou que eu teria que ligar depois e informar tudo novamente porque o sistema que desbloqueia a linha estava fora do ar. Ela não poderia me ajudar. Tudo bem, disse, dessa vez sem paciência alguma, então como faço para cancelar minha linha, perguntei, já prevendo todos os transtornos que teria com a mudança de telefone e optando por isto a ter que ligar novamente para a operadora. ''Olha senhora, para isso é preciso esperar desbloquear o telefone.'' Desliguei a ligação e, resignada, fui comprar um cartão telefônico me sentindo a Senhora K. ''O Processo'' é mesmo um livro atemporal.

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