LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de abril de 2007
Andréa Lombardo<br> Equipe da Folha 
Os ônibus do transporte coletivo - em especial o ''expresso'' - bem que poderiam servir de base para estudos sociológicos, psicológicos, comportamentais. Aposto que alguém ligado à área já pensou nisso. É que a diversidade de pessoas ali é muito grande e, não raro, é possível se deparar com figuras, realmente, ímpares.
Os cabelos brancos e a silhueta franzina não combinam com a vitalidade daquele senhor que embarca na linha Santa Cândida-Capão Raso. Não demora muito para sua presença ser notada por todos os passageiros. E reparem que o ônibus é grande! A voz grave e amplificada ecoa de uma ponta a outra, despertando olhares curiosos, que tentam entender o que seria aquele alvoroço no coletivo.
Falar mal dos políticos é o tema preferido. Os do Paraná não escapam às críticas, mas o alvo principal é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ''Aquele sem-vergonha! Agora, está vendendo a Amazônia. Vai vender tudo as tora (sic) da Amazônia.'' E, andando da porta três, por onde embarcou, até os bancos próximos do motorista, o senhor falante vai procurando interlocutores a cada passo.
Não adianta desviar o olhar, fazendo de conta que não é com você. De alguma forma, ele vai buscar uma reação, uma resposta à sua indignação com os rumos do País e da humanidade. A necessidade de colocar para fora aquela raiva contida o faz interagir, até mesmo, com a gravação, em voz feminina, que anuncia os pontos de parada. ''Cuidado com furtos no interior do veículo'', diz um trecho da gravação. ''Aqui não tem ladrão não, minha filha. Só lá em Brasília'', adverte o senhor.
''Danificar ônibus, terminais e estações-tubo encarece a passagem'', continua a mulher do alto-falante. ''Já encareceu, minha filha. Já encareceu'', constata o velhinho que, não contente com o comentário jogado ao vazio, olha para a moça que está em pé, ao seu lado, e pergunta: ''Ei, vizinha! A passagem aumentou e o seu salário?''. Com a negativa, ele emenda em tom consternado: ''Judiação! Pobre de nós brasileiros, que vivemos nas garra (sic) do patrão!''
Além do protagonista, é interessante observar as reações das pessoas, quando aquela figura falante passa perto. A minha, admito, foi ficar imóvel, quase sem respirar, para evitar a aproximação. Era um dia em que tinha preguiça de me envolver em uma discussão inflamada. Ao mesmo tempo, tentava entender o que leva uma pessoa a ser tão ''efusiva'' (como diria minha filha). Arrisquei uma análise. Talvez se sinta muito sozinha e busque entre estranhos um dedinho de prosa. Ou não. É só seu jeito mesmo. A gente é que não está acostumado. Um viva às diferenças!


