LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de abril de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Sinto que fui uma criança afortunada por ter como avô um cientista. Em suas experiências, ele sempre demonstrou que o veneno e o remédio são a mesma coisa, porém em dosagens diferentes. Aquilo que cura também pode matar. Prova disso era um remédio para hemorróidas que ele confeccionava utilizando pimentas.
Decidi levar este conhecimento para outros segmentos da vida. Como pecador que sou, descobri que seguindo a mesma lógica posso utilizar meus defeitos a meu favor, contrapondo um pecado a outro, combatendo fogo com fogo. Separando uma pequena dose das minhas imperfeições posso encontrar a vacina para minha falta de virtude.
Dentre os sete pecados capitais, acredito que a preguiça seja em mim o mais atuante. Segundo a psicanálise, podemos direcionar a energia de um desejo (pulsão) para outras finalidades, como trabalho e estudo. Desta forma, seria um desperdício deixar de utilizar algo tão poderoso quanto meu desejo de não fazer nada. Resolvi então usar essa energia a meu favor, combatendo outros pecados.
Para ter idéia do tamanho deste poder, podemos vencer a gula através da preguiça. Ocorre desta forma: logo que chego em casa à noite, trato de escovar os dentes. A preguiça de escová-los novamente me impede de beliscar qualquer quitute após o jantar.
Podemos levar a técnica adiante. A falta de entusiasmo em cortar o cabelo pode parecer puro desleixo ao observador incauto, mas não é. Trata-se de uma intensa batalha da preguiça contra a vaidade. Da mesma forma podemos evitar a ganância (que muitas vezes é confundida com um virtude) através da preguiça, nos resguardando do trabalho excessivo.
Continuarei explorando as qualidades da preguiça no combate aos outros pecados. Comunicarei a vocês, caros leitores, se eu obter outras vitórias nesta batalha. A não ser, é claro, que eu fique com preguiça de escrever. Se isso acontecer, é sinal que a preguiça está vencendo a soberba.


