LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de abril de 2007
Adriana De Cunto<br> Editora da Folha 
As filas preferenciais para idosos, gestantes, deficientes físicos e mulheres com crianças pequenas no colo são superimportantes. Ninguém discorda que foi um avanço a sua regulamentação em instituições bancárias, comércio, serviços. Quando estava grávida, não tinha o menor constrangimento em empinar o meu barrigão em uma fila para esses clientes especiais. Quando chegar à ''melhor idade'' - se Deus permitir - também ocuparei meu lugar junto aos meus colegas idosos. Mas tenho esperança que até lá já não existam mais filas e carnês de pagamento.
O problema é quando você está em uma fila qualquer de banco - normalmente com umas 20 pessoas na sua frente - e alguém se apresenta como idoso sem nem de longe lembrar um velhinho.
Só esta semana, duas situações como essa aconteceram comigo. A primeira, em um banco perto de minha casa, no bairro Bigorrilho. Depois de alguns longos minutos que eu estava na fila, surge uma mulher, barriga ''tanquinho'' - ela vestia um blusa de malha que marcava os músculos trabalhados em academia - se apresenta ao caixa como gestante e ocupa o primeiro lugar da fila. Enquanto tira umas fichas de compensação da bolsa, fala alto no celular, diz para o filho que já está indo pega-lo. As pessoas se olham, querem questionar, reclamar, abaixam a cabeça. Constrangidas, ninguém reclamou. Afinal, pode ser uma gravidez nos primeiros meses... Como saber? Vai da consciência de cada um...
Mas o segundo caso foi duro de engolir. Novamente em uma fila, desta vez de uma lotérica, mais umas 15 pessoas na espera. Aparece um homem, meia-idade, calça jeans, camiseta listrada, óculos escuros ray-ban, celular na cintura, bolsa tipo capanga (urgh!), vendendo saúde e disposição. Pára no guichê e dispara: ''Onde é a fila para idoso?'' Todo mundo esperava surgir na porta um pai, um avô, mas eis que o próprio ocupa o lugar previlegiado.
Ninguém tem coragem de dizer nada. É um constrangimento geral. Teve gente que até murmurou: ''Bem conservado, né?'' Mas corre o risco do ''idoso'' ter levado o comentário como um elogio. Melhor seria criar uma fila para os cara-de-pau.
A propósito: Você deve estar pensando que tenho frequentado muitas filas de banco para pagar conta. É, eu concordo!


