Na última volta para a casa dos 30 anos, decidi (finalmente) aprender a conduzir automóveis. Minha decisão causou estranhamento na maioria das pessoas à minha volta, os mais próximos porque conheciam meu pouco interesse pelo assunto, os desconhecidos porque acham absurdo um homem na minha idade não ter vivência automobilística.
Particularmente, não acho nada de mais nisso, afinal, até então não tinha carro para dirigir e me sentia contemplado pelo sistema de transporte coletivo, suas peculiaridades e curiosidades. Haveria então de tirar carteira por que, ora pois.
Diferente de muitos rapazes da minha geração, que aprendiam a dirigir logo que saiam das fraldas, nunca me interessei por esse assunto. Quando criança, sempre preferi aviões e espadas a carrinhos, Freud deve explicar essa minha preferência em algum lugar de sua obra. De qualquer forma, esse distanciamento me poupou de alguns contratempos comuns de adolescência, como quando os pais viajam e o jovem rouba o carro para enfiá-lo em uma árvore a duas quadras de casa.
Na verdade decidi aprender a dirigir depois que comecei a ter um pesadelo recorrente, em que o motorista do carro morria e eu tinha que continuar a viagem para levar alguém ao hospital, ou coisa que o valha. Era amedrontador, pois apesar de se tratar de uma construção do inconsciente, eu não conseguia controlar o veículo (meu inconsciente é tão burro quanto meu consciente). Acordava aos berros: ''Bifurcação em T tem parada obrigatória!''. Pelo menos este sonho serviu para me alertar de que um dia teria que enfrentar os desafios do volante, da embreagem e do câmbio, nem que seja para um dia levar minha esposa (a atual motorista da casa) para a maternidade.
Mas faço uma ressalva sobre o método de ensino das auto-escolas. Não sei se tratam todos os alunos da mesma maneira ou se é provocação, mas esses profissionais acreditam no exercício de completar palavras. ''Antes da curva você tem que re-du...'', ''...zir'', respondo com um grunhido. Ou as variações no diminutivo ''Tem que prestar atenção na pla-qui...'', ''...nha'' completo a contragosto.
Espero logo passar por esta etapa e conquistar o direito de me aventurar maquinado pelas vias. Não por prazer, mas por necessidade.

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