Descobri que não tenho vida pessoal. Não que isso me incomode profundamente, porque até já estou acostumada. Mas é uma constatação até cômica para uma mulher que foi criada sonhando em ter um casamento perfeito e filhas maravilhosas...
As filhas até tive. Faltou o casamento perfeito (se é que algum pode ser). Mas não foi o casamento que me levou a exterminar minha vida pessoal. É parte da minha personalidade. Não sei ficar parada. Muito menos namorar, ou sair com os amigos. Minha vida é o trabalho. Seja lá onde for, como for...
Quando tinha 13 anos, enfrentei pela primeira vez o mercado de trabalho. Pela manhã, cumpria a obrigação de todo o adolescente de ir à escola para ter uma profissão. Mas já tinha uma. Todas as noites fazia todo o processo de curtimento de couro. Isso mesmo, couro de coelho, de sapo e de cobra. Depois de curtir, ainda tinha que tingir e amaciar o couro para encaminhar para a logística da empresa -que detinha uma confecção de casacos de pele...
Passei por vários outros lugares. Sem nunca deixar de trabalhar. Fui professora de pré-escola, auxiliar de costureira, diagramadora, digitadora. Nunca tive medo de nada novo que me apresentavam...
Mas resolvi refletir estes dias, quando percebi que vou passar o resto dos meus dias sozinha. Minhas filhas vão crescer. Vão se formar. Possivelmente encontrarão maridos, sonhos, mercados diferentes de trabalho. E eu fiquei aqui... trabalhando... trabalhando... trabalhando...
... acordo às seis horas da manhã. Entro no meu primeiro turno de trabalho. Outros três me esperam. Além de jornalista, tenho um lado empresarial (nada que uma loja, um canil e uma distribuidora não resolvam). Chego em casa. Cuido das lições das minhas filhas. Levo-as à escola.
Tenho um dia que guardo sem trabalho: o domingo (isso quando não tenho plantão). Mas esse é o dia que reservo só para minhas meninas. E o meu dia? Qual será?

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