Não tenho filhos e não sei se o cometerei um dia. Do lado de cá, às vezes desconfio que ter filhos é um ato egoísta. Lançam-se pessoas no mundo para sofrer e ainda cobra-se delas que tenham uma vida melhor que a que seus pais tiveram ou tão digna quanto. Pai (isso vale para as mães também, claro) nenhum admite que o filho não queira ser alguém-na-vida. Isso quando não depositam nos filhos a missão de rebocar a família toda para uma classe econômica mais abastada, como ocorre com as candidatas a modelo ou os candidatos a jogador de futebol. E aí vemos meninas de 12 anos sendo transportadas para um universo de competição por fama e fortuna morrendo anoréxicas antes da maioridade. A culpa é delas?
Todo mundo já nasce com a ingrata e cruel missão de ser motivo de orgulho de alguém, ou ao menos não ser o causador da vergonha de outrém. O fracasso de um filho é também o fracasso dos pais. O que estes vão dizem aos amigos ou aos familiares?
Pais e mães competem para ostentar quem têm o filho mais bonito, o mais inteligente, o mais estudioso. E mais tarde, o mais trabalhador e o mais rico. No caso das filhas mulheres é pior porque além de tudo ainda há a cobrança quanto ao casamento.
Pobres criancinhas que vivem protegidas em sua rotina casa-escola e que de repente se vêem tendo que ser adultos bem-sucedidos. Ser filho é estar constantemente sendo cobrado, julgado, avaliado. E amado, por que não? É o amor que os move, dirão os pais em defesa própria. Pode ser que um dia eu queira sabê-los e passe a ver tudo isso de outra perspectiva. Por enquanto, melhor não tê-los.

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