O escritor russo Dostoievski afirmou certa vez que se retirasse de suas histórias as personagens desprezíveis, muito pouco restaria da ação dramática. Na opinião do escritor, as tramas literárias dependem muito mais das personalidades rotas, mentirosas e desumanas do que dos benfeitores e dos santos. Quem precisa irremediavelmente de heróis é o cinema hollywoodiano, não a literatura. Nela, os bons são demolidos aos poucos e continuamente, até que nada deles reste a não ser a ausência de força moral.
Dando um salto quântico dos livros para os quadrinhos infantis, encontramos um bom comparativo. Nas histórias da Turma da Mônica, todos os personagens são defeituosos por excelência. O Cascão não tem a mínima higiene, a Magali possui um grave distúrbio alimentar, a própria Mônica deveria tomar medicação para controlar sua raiva e o mais normalzinho de todos tem problemas de calvice e de dicção, enfim, é um cômico show de horrores. Mas porque tudo isso? Ora, porque é nos defeitos que reside o que há de mais interessante do ser humano.
Ninguém recebe um apelido em decorrência de uma virtude. São sempre as imperfeições que se destacam, ''careca'', ''bochecha'', ou então as semelhanças desabonadoras com animais, como '' pinguim'' (por conta da corcunda), ''castor'' (devido aos dentes da frente desproporcionais), ''ameba'' (por conta de algum déficit cognitivo) e outros. Nunca vi ninguém alcunhado pelos entes queridos como ''lindão'' - salvo alguma ironia -, muito pelo contrário, geralmente este tipo de brincadeira leva uma forte dose de sinceridade, e de crueldade também.
Demoramos para perceber que grande parte de nossas riquezas pessoais reside em nossos defeitos (lembrando que defeito não inclui índole criminosa). Ao tentarmos desesperadamente eliminá-los, esfregando nossa personalidade com a bucha da auto-crítica, jogamos fora, junto com a água suja, aquilo que nos torna únicos no mundo.

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