Um amigo me relatou uma história picante. Interessante. Fez-me pensar até onde vai a carência humana. O que se é capaz de fazer para chamar a atenção. Mesmo que seja de um animal...
  Ele mora comigo (não dentro da minha casa, num local ao lado), numa chácara onde o forte é a criação de animais. Parte dos cães – os de grande porte – ficam soltos pelo campo. Brincam. Procuram nosso carinho...
  Os demais, a maioria de pequeno porte, ficam dentro de um espaço que chamamos de canil. Mas com infra-estrutura de hotel. Até perguntaram certo dia se o espaço era uma pensão para humanos. Não que pareça. A estrutura tem espaço para vários cães ao mesmo tempo. Mas abriga poucos. Uma delas tem apenas um cão, da raça Labrador, de cor chocolate e de nome Fabinho...
  ... sei que os humanos não gostam que os cães carreguem seus nomes. Mas convenhamos: os cães são fiéis, dóceis, amáveis, elegantes, sinceros, amigos. Tal homenagem só pode ser feita a poucos homens...
  Dias desses, esse amigo me revelou o que sempre me causou estranheza. Como o espaço é adequado, os cães nunca latem. A não ser quando alguém entra no canil. Pois bem. Algumas noites eles latem com veemência, como se estivessem perturbados com algo...
  ... e estavam. Para chamar a atenção de Fabinho, esse meu amigo contou que sobe numa cadeira embaixo de uma luminária e dança. Basta o movimento começar, para o cão latir como se quisesse acompanhar a dança. Os outros, enciumados, pedem juntos para ver o espetáculo. Inutilmente. Após vir o cansaço físico, esse amigo desce da cadeira, apaga a luz e dorme.
  Questionado sobre a razão do devaneio, ele respondeu:
  – Percebi que todas as vezes que dançava perto dele, ele latia. Quando ficava parado, como estátua, ele também parava de latir. Às vezes repito o gesto para ter certeza que ele está ali – esperando que eu volte – para tornar a latir...

mockup