Não entendo nada de futebol, nunca entendi, mas nem por isso sou infeliz. Acho que me falta algum tipo de sensibilidade especial para compreender a emoção que experimentam os torcedores fanáticos, aqueles que apanham, riem, choram e até cometem crimes pelo time do coração. Neste quesito, meu coração não tem pátria, sou um estrangeiro no mundo da bola.
  Por alguma ironia divina, o destino me brindou com a amizade de vários jornalistas da área esportiva. Na verdade, a maioria deles ainda era criança quando os conheci, depois já era tarde demais para renegá-los, tive que me acostumar.
  Sendo macho e brasileiro, acabo sendo visto como um criminoso por não achar graça alguma no esporte bretão. Na verdade gosto do esporte em si (sou conhecido como o zagueiro kickboxer) assim como gosto de jogar pingue-pongue, bets, poker, etc.
  Aos meus ouvidos soa como mandarim palavras como classificação, chave, rodada, e outros termos amplamente usados no mundo da bola. Não compreendo o ‘‘futebolês’’.
  Não pensem que não sofro na pele as consequências da minha aversão. Em rodas masculinas, quem não está por dentro do futebol é visto como um pária, como se tivesse alguma disfunção cognitiva que lhe impedisse de partilhar a alegria dos estádios. Tento sair pela tangente com frases feitas, como ‘‘empate fora de casa é bom resultado’’, ‘‘quem não faz (gol), leva’’, e outras do gênero, apenas para me enturmar, mas nunca dá certo.
  Para não chocar estranhos com a minha indiferença e nem atrair polêmicas regionais, costumo mentir que torço para o Vasco da Gama. Mas nem assim escapo ileso, certa vez um flamenguista me provou com argumentos incontestáveis, que o Vasco era uma droga de time. Tive que concordar.

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