LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de fevereiro de 2007
Maria Duarte<br>Equipe da Folha 
Durante os anos de faculdade, um professor fazia o papel de combatente solitário das hordas de pombas que infestavam o prédio da praça Santos Andrade. Dizia que elas eram ''ratos com asas''. Os alunos não ligavam. Com sono (ou jogando truco), mal percebiam as ''intrusas''.
Para o professor, elas eram a encarnação da peste: carregadoras de pulgas, entregadoras incansáveis de todo tipo de doença, inconvenientes espiãs de suas aulas. Para piorar, soltavam seus excrementos nos locais mais inusitados, o que incluía - e ainda inclui - cabeças de alunos desavisados que ficam parados batendo papo nas escadarias (até hoje desconfio que essa atitude das pombas era a única coisa que o professor aprovava nelas).
Muitas turmas se formaram, o professor se aposentou. E as pombas continuam lá, revezando o tempo entre a praça e as janelas do prédio da universidade. Elas e os carrinhos de pipoca que garantem o café, o almoço e o jantar de gerações de pombas curitibanas.
O caso dessas pombas franco-atiradoras de alunos me veio à memória dia desses, quando ouvi de ex-vizinhos a história de que na reunião de condomínio os civilizados moradores queriam exterminar as pombas que haviam invadido sacadas e não perdoaram nem o telhado da churrasqueira, fazendo seus ninhos. Uns mais afoitos sugeriam o envenenamento das aves, mas num prédio cheio de cães e gatos a idéia foi logo classificada como tentativa de homicídio em massa. Outros queriam despachá-las para o zoológico ou o Passeio Público (onde elas poderiam conviver com outros de sua espécie e assim suavizar a neurose de acertar outros alvos móveis).
De repente alguém denunciou que os filhos do síndico jogavam pipoca e miolo de pão para as aves, no pátio. A reunião estava virando um tumulto quando começaram as confissões: quase todo mundo jogava comida para as pombas. Decidiram então não decidir. As pombas ficam onde estão. As pessoas que se acostumem. E voltem a usar chapéus.
P.S. - Na redação da Folha em Curitiba pelo menos duas jornalistas já foram vítimas das franco-atiradoras. Nenhuma estava de chapéu no momento do ataque.


