LIGEIRAS
Sempre me senti atraído por obituários de jornal. Tem gente que gosta dos classificados, outros da página de esportes, eu gosto de obituários, o que tem de mais? Não se trata de nenhum desejo mórbido, não há nenhum prazer nesta leitura. Pelo contrário, o que atrai é um receio gelado, como se a morte de outras pessoas, criaturas ordinárias como eu, demonstrasse de forma cabal a finitude da vida. Impressa na página de jornal, esse tipo de informação serve como prova de que também os anônimos, e não só os bandidos, os presidentes e os artistas, morrem um dia.
Os figurantes da página do obituário parecem estar mais próximos de minha condição, somos colegas, pois um dia teremos o mesmo espaço nesta coluna periódica. A diferença é que, por enquanto, sou eu quem lê sobre eles.
Se fosse editor do jornal, além dos dados habituais sobre as mortes, como o horário das missas, idade, etc., acrescentaria também a causa mortis de cada um. O leitor saberia, por exemplo, que Afonso tinha uma tosse que não sarava nunca (e não sarou mesmo), que Belmiro ingeriu soda cáustica porque pensou que era Guaraná, ou que Carlinhos não sabia nadar quando resolveu brincar na cava de areia. Acho que essas informações enrriqueceriam a publicação, dariam mais vida ao obituário.
Se dispusesse de mais espaço ainda, acrescentaria as últimas palavras de cada um. Pedidos de vingança, instruções para o funeral, revelações de paternidade, ou mesmo algum conselho para os que ficam.
O obituário não está sujeito a interpretações e pontos de vista de redatores e jornalistas. Sobre a morte não há muito a refletir. Ou então, porque há muito a refletir, é que não cabem tantas interpretações sobre ela.





