Olha, eu vou contar uma coisa. Na minha opinião, eu acho essas pessoas que começam todas as frases com ‘‘eu’’ bem esquisitas. Eu mesma tenho uma mania meio esdrúxula. Tenho o costume absurdo de ficar escutando as frases das pessoas, nas ruas, nos restaurantes, nas filas dos bancos, nas padarias. Não é assim algo que posso controlar. Quando percebo já estou ouvindo fragmentos das histórias. Pequenos caquinhos das vidas das pessoas. Ou caquinhas, depende do lugar. O caso é que comecei a fazer uma breve pesquisa sobre a quantidade de pessoas que começam as frases com ‘‘eu’’ ou ‘‘na minha opinião’’.
‘‘Eu acho que ela não deveria fazer isso, ontem mesmo disse que queria ficar comigo. Hoje não quer mais. Um absurdo. Não sabe o que está perdendo, aquela...’’. Bem, algumas vezes não escuto o final, ou a pessoa já saiu de perto de mim, então não adianta ter curiosidade no final da história. Mas de tanto escutar o começo, estou bem interessada nesse início mesmo, que também pode ser um meio, vai saber. ‘‘Veja bem, na minha opinião a gente não tem que dar presente de Natal, não. Isso é invenção do capitalismo. Eu acho...’’.
Pronto, e lá se foi o casal que conversava. Passou por mim na rua e eu escutei sem querer a conversa. Depois dou uma olhadinha discreta, para ver o autor da frase. E ainda complemento a história com a imaginação mesmo. Cafajeste. Não quer presentear a moça e fica com esse discurso pseudo-comunista. Homens. Mas na mesma hora passa outro casal e ela vai dizendo: ‘‘Na minha opinião o problema está em mim, não em você... Você é legal, mas eu... Eu...’’. Atravessei a rua. Não deu para escutar o restante da história da moça. Dessa vez não deu nem para ver quem era. Mas, na opinião dela, ela mesma não era legal.
Não sei exatamente qual o peso das nossas opiniões sobre a vida e as ações das outras pessoas. Se depende do grau de intimidade ou não. Se algum desconhecido falar que você está acima do peso, bebendo um pouquinho além da conta ou com mau hálito vai ser diferente de ouvir isso da própria mãe ou de um amigo de infância? Eu acho que sim... mas isso, veja bem, é só minha opinião. Eu acho. O caso é que, da próxima vez que você for terminar um namoro enquanto caminha ou almoça, cuidado com as palavras, eu posso estar ouvindo.

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