Não sou acostumada a sair acompanhada. Sou tímida, não gosto de lugares públicos, nem sou dada a conversas que terminam com risinhos sem graça. Mas gosto de curtir a noite, de pessoas inteligentes, de olhar a lua de madrugada e fazer pedido para as estrelas.
Bem menina, mesmo. Não são raros os momentos em que coloco na grama um grande lençol e fico com minhas filhas, contando os astros. Elas, brincando. Eu, em silêncio, nominando cada um deles.
Tenho costumes estranhos. Que não são normais para maior parte da população.
Percebi isso com dois atos insanos que cometi estes dias, quando resolvi me abandonar em mim mesma. É essa a expressão. Minhas filhas estavam visitando o pai e eu estava só. Fui ao parque, coloquei uma toalha na grama e deitei sobre ela. Embaixo de uma árvore, passei horas lendo um livro de ficção.
Muitas pessoas resolveram subir o monte de bicicleta. Talvez para imaginar o que uma mulher faria com um livro nas mãos, totalmente à vontade e sem sandálias. Tentei não me sentir uma alienígena. Continuei lendo e passei horas ali.
Uma semana antes, experimentei uma saída ainda mais vexatória. Resolvi ir a um motel. Sim, sozinha. Escolhi a suíte e ia entrando quando a mulher me perguntou:
- Você está sozinha?
Vieram várias respostas na minha cabeça. Daquele tipo bem sacana. Não disse nenhuma delas. Respirei fundo e respondi:
- Sim.
Não convencida, ela ainda perguntou:
- Desculpe, senhora. Mas está esperando alguém?
Será que é tão difícil uma mulher resolver curtir um dia sozinha numa suíte com hidromassagem, sauna e piscina? Pensei. Sorri e respondi que não esperava ninguém e que sairia na hora programada.
Na semana que vem, vou procurar um programa menos estranho. Mas não consigo pensar em nada diferente de deitar na beirada do lado do Parque Tanguá, enquanto admiro o nascer ou o pôr-do-sol, correr embaixo de chuva no Bosque do Alemão (entre pingos e sombras de belas árvores), tomar sorvete enquanto declamo poesias para mim mesma na frente do belo rio que corta Guajuvira, observar estrelas olhando o limite entre o horizonte e o mar numa noite quente da Ilha do Mel...
...é, acho que sou mesmo uma alienígena em terra sagrada!

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