Almeida era homem que amava mecânico. A prova disso eram dois dedos, médio e indicador, que não se dobravam, como se segurassem um cigarro invisível que fumava até a náusea. Os dedos simplesmente não se dobravam; de modo, porém, que isso não o incomodava como poderia incomodar outras pessoas, achando que dedos que não se dobrem seja um grande defeito. Para Almeida eram apenas dedos duros – que até teriam muita serventia na hora do amor se ele não amasse mecânico, se estes dedos não inspirassem asco na amada.
  O beijo de Almeida tinha gosto de palha de aço, apesar de seus lábios conservarem uma saliva molhada – mas ele não babava por ninguém, nem pela gostosa que acabou de passar. O beijo dele teria este gosto, aliás, se ele tivesse o hábito de beijar na boca – justamente ele, no entanto, tinha o hábito de não beijar na boca. Não que ele achasse um nojo ou coisa do tipo; acontece apenas que ele achava que certas coisas não são coisas de serem feitas por certas pessoas de certas idades.
  Quem sofria com isso era a mulher de Almeida, que apesar de não ser tão sensual ou voluptuosa, de não ter carnes tão quentes, gostava, de vez em quando, de receber um beijinho, nem que fosse no rosto, antes de dormir. Mas há muito Almeida não dava e ela desconfiava de que já tivesse o feito um dia. Era bem esquecida, a senhora Almeida.
  Alheio a isso, Almeida andava pela rua com um guarda-chuva. Sempre. Até em dias de sol lá estava Almeida e seu guarda-chuva. Não que ele tivesse medo de se molhar durante um chuvisco ou uma tempestade. Acontece que era apenas um hábito. Quando esquecia o guarda-chuva, não se sentia como se estivesse sem uma perna. Ele ia assim mesmo. Quando se lembrava, porém, carregava consigo o pequeno objeto negro.
  Por fim, Almeida não comia cebola. Mas não se incomodava que a comida tivesse cebola. Separava a cebola de sua comida e deixava no canto do prato. Quando acabava de almoçar, subia de escada para o escritório. Era no terceiro andar. E assim seguia sua vida.

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