Sou usuário do transporte público de Curitiba. Diariamente, quando me aproximo da estação tubo do biarticulado, fico feliz em saber que contribuo para não deixar o trânsito da cidade ainda mais caótico. Também contribuo para diminuir a poluição da Capital. Mas esta felicidade dura apenas alguns segundos. Quando a porta do ônibus abre encontro a multidão aglomerada em um espaço que não é suficiente para todos. E não adianta esperar o próximo pois estará do mesmo jeito.
Sendo assim, tento ver o lado positivo da situação e me divirto com as conversas dos cobradores. Como pego dois ônibus para trabalhar, a diversão é grande. O cobrador do primeiro tubo virou meu amigo. Ele quer ser jornalista e irá prestar vestibular no final deste ano. Todos os dias conversamos sobre a profissão e empresto meus livros para ele, que se diz cada vez mais apaixonado pela área. Sempre comento o lado positivo e negativo de trabalhar na imprensa, mas ele está obstinado a ser um grande jornalista e quer trabalhar na editoria de cultura.
Na estação seguinte, uma cobradora conversa todo dia com outra colega de profissão que fica por lá apenas para prosear. Os assuntos preferidos das amigas são homens e carros. Dos homens falam mal. Brigas, namoros, casos, discussões e tudo o que uma relação tem direito. Dias atrás o marido de uma delas entregou um pastel, em um singelo ato de carinho e preocupação com a esposa. Imaginei uma relação de cumplicidade e afeto das duas partes. Assim que ele saiu a presenteada disse: ''Tentou me enforcar ontem e agora vem trazer pastel''.
A maior preocupação da vida de uma delas é o carro que possui. Não tem um dia que a mulher, de aparentemente 40 anos, não fale do automóvel. Ela sempre tenta imaginar qual o melhor lugar para estacionar o veículo. Chega a cogitar deixá-lo na garagem da empresa de ônibus, para que os vigias tomem conta. Mas segundos depois desiste da idéia e prefere parar o carro em frente ao tubo. No outro dia já tinha arranjado um lugar melhor. Mas hoje estava pensando se lá era uma boa opção.
Esses dias uma delas disse que o filho da vizinha é viciado em overdose. Tentei imaginar como é ser viciado em overdose. Ele tem sete vidas? Mas isso é assunto para outra Ligeiras.

mockup