LIGEIRAS - O tempo de cada um
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de maio de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
A filha adolescente de um amigo entra no meu carro. Abre a mochila e pede: ''Posso colocar um CD''. Ops! Não deu tempo de responder e ela já diz apavorada: ''O CD não cabe aqui. O que é isso?'' ''É um toca fitas'', respondo. Sim, ainda sou adepta ao ultrapassado aparelho. Medo de ser roubada é uma das explicações. A outra é o saudosismo. Adoro quando o aparelho empaca e eu aproveito o sinal fechado para voltar a fita com uma caneta Bic. Tenho amigos que podem nem saber do que estou falando, mas há alguns que certamente vão se identificar.
Tem coisas que deixam saudades e evocam lembranças. Não apenas dos aparelhos, mas dos gestos que deixaram. Quantas vezes, na escola, ganhei fitas de pretendentes com músicas escolhidas a dedo. Quantas vezes gravei K7 com músicas que terminavam de um lado e, quando a fita acabava abruptamente, a canção começava do ponto onde parou, no outro lado da fita. Coisa dificílima de conseguir. Praticamente um dom.
Hoje em dia, é tudo mais fácil, claro, mas não deixo de sentir saudades e ainda utilizar o velho toca-fitas. O som, confesso, é horrível. Comparado ao CD, ao iPods, ao MP3 a sensação é que existe um ruído intenso e imenso na comunicação. E existe. Um ruído de gerações. A filha do meu amigo pode conhecer a garotinha que ficou encantada ao descobrir, no porão de casa, uma máquina de escrever. ''Mãe, achei um computador incrível, imprime ao mesmo tempo que eu digito'', ela disse. Não sei se é verdade. Já virou anedota. Piadas que só o tempo oferecem.


