LIGEIRAS - O paradoxo da gordura
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de maio de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Não conheço nenhuma pessoa que não se pele de medo de ficar gorda. Mesmo os homens, mais despreocupados com a forma física, observam com receio qualquer protuberância abdominal (mesmo que neguem este fato na mesa de bar, onde barriga é sinal de caráter). Sobre o sexo feminino não há o que falar, a obesidade é o pesadelo de nove entre dez mulheres (a décima está em tratamento em instituição psiquiátrica).
Este pânico impulsiona toda uma categoria de produtos ligth e diet que prometem um corpo esbelto (mas não necessáriamente saudável), aos moldes da boneca Barbie e de seu companheiro Ken. Tomar medicação controlada para barrar a gordura, mesmo que afete outras áreas do cérebro, do pâncreas, fígado e estômago é legítimo quando se trata de manter a aparência. Magreza é o que interessa, saúde não tem pressa.
Por outro lado, dificilmente ligamos a figura do gordo ao quadro de depressão, muito pelo contrário. Quando penso em tristeza logo me vem à mente a imagem das modelos anoréxicas ou do suicida que amarra ao corpo uma pedra antes de pular no rio, pois seu peso é insuficiente para concluir o afogamento. Macambúzios são os magros, ora pois.
Peguemos exemplos públicos como Jô Soares, Faustão, Rafael Greca, e veremos que os gordos são figuras simpáticas que esbanjam alegria e vivacidade. Têm movimentos grandes (e como não teriam?) vozes poderosas, emitem uma aura de felicidade, parecem estar em paz com suas formas. Esse paradoxo confunde os magros, que não entendem o motivo de tanta alegria. Serão os gordos todos dissimulados? Será que escondem detrás do prato de torresmo suas mágoas em relação à vida? Ou então, será que a grande alegria da existência é comer e comer e bobos somos nós em busca de nossa infelicidade magra?


