Não vou a cartomantes. Não acredito nos búzios. Prefiro, sim, ler os sinais do cotidiano. Me divirto e provoco reflexões ao sair às ruas e ler frases soltas, escutar uma frase saliente em meio ao burburinho das conversas de pedestres e achar que foi dita, escrita ou pensada para mim. Um sinal dos deuses. Ou dos tempos. Tenho vários exemplos. O mais recente e o que mais me intriga é uma pichação em uma lixeira no caminho entre o prédio da redação e o estacionamento. É só eu ficar na dúvida sobre alguma decisão a tomar, que meus olhos são inevitavelmente atraídos para o grafite, que diz: ''O dia me pertence''.
Não sei o autor, mas me ocupo a pensar que escreveram aquela frase ali para abrandar meus momentos de incerteza. O dia me pertence. Chego no carro e ligo o rádio ao acaso. O que teriam os deuses das estações a me dizer sobre minha atual situação: ''Se quiser saber pra onde eu vou. Pra onde nasce o sol, é pra lá que eu vou''. Respiro. Se o sinal estiver verde, tomo a decisão de caminhar para o sol. Vermelho é para continuar estática. Mas na rua seguinte o semáforo está amarelo. Nenhuma decisão deve ser tomada.
Os sinais das ruas são melhores que cartas de tarô. Você pode fazer sua própria interpretação. Mas é preciso estar atento. Olhe para a frente. Se passarem três pessoas de camisa verde no mesmo lado da calçada significa que sim, você deve telefonar para o antigo namorado. Pedir demissão. Trancar a faculdade. Mudar de profissão. Não espere que uma vidente ou cigana na rua leia sua mão. Faça suas próprias interpretações. Afinal, o dia nos pertence.

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