LIGEIRAS - Na esquina da vida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de dezembro de 2006
Maria Duarte<br>Equipe da Folha 
Dormindo na calçada, pedindo trocados, comendo quase nada e buscando, nos papelões rejeitados por quem desembrulhou os presentes, o refúgio ora do sol ora do frio.
Pequeno, olhos miúdos, ombros curvados, cabelo desgrenhado, rosto sujo. Idade parece não ter. Pelo menos a idade da pele não combina com a idade do olhar de quem já sofreu tudo. Medo, abandono, fome. Barriga cheia, só de vermes, como se notava dia desses.
Parecia se alimentar mais dos poucos olhares de atenção que recebia nos semáforos.
Tio, tem um trocado? Ó, pode ser só moeda mesmo, tá?
Fica pra outro dia, garoto...
No outro dia ele estava lá, na calçada. Em pé, os pés escorregando dos chinelos enormes.
Tio, tem um trocado?
Só moeda.
Serve...
O que chegou a suas mãos naquele dia serviu pelo menos para espantar o frio, porque depois de cheirar cola não parecia sentir mais nada. Dormiu sentado, encostado no muro, com o saco plástico da cola na mão.
O cochilo serviu para chamar a atenção dos bem aprumados pedestres, de quem ele enxergava só os sapatos, porque não levantava nem a cabeça nem o corpo. Não se sabe muito bem o que aconteceu. Alguém teria chamado a polícia, a ação social, o Siate, qualquer coisa. Serviu para ele parar de obstruir a calçada em um endereço tão nobre. Seus olhos miúdos nunca mais espiaram para dentro dos vidros dos carros que paravam naquele sinaleiro.
Arrastou seus chinelos por alguns quarteirões. Agora ele espia e espera suas moedas na esquina da praça. Diz ele, para quem concede alguns segundos de conversa fiada, que ali é o seu lugar, que ninguém atrapalha.
É o que lhe foi permitido. E aceita, porque se o mundo não lhe serve, ele se serve.


