LIGEIRAS - Mudança de nome
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de abril de 2008
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Quando ainda tinha sua farmácia no interior do Estado, meu avô mantinha um caderninho onde anotava os nomes que considerava bastante incomuns para mais tarde mostrar à família, o que acabava rendendo muitas gargalhadas.
Há algum tempo os cartórios não permitem mais que uma criança seja registrada com algum nome que possa lhe trazer constrangimento mais tarde, além disso, é permitido para qualquer pessoa maior de idade trocar o próprio nome se dele não gostar. Mas quase ninguém faz essa mudança, até porque essa situação poderia gerar conversas inusitadas.
''Alô?''. ''Oi, é da casa da Ana?'', ''Sim, é ela'' ''Oi, Ana, aqui é a Cacilda, estou ligando para avisar que de agora em diante eu me chamo Savannah''. ''Hein, é alguma brincadeira?''. ''Não não, eu estou ligando para todas as pessoas que eu conheço para avisar que eu mudei de nome, para o pessoal não estranhar, né''. ''Mas como assim, Cacilda?''. ''Savannah por favor!''. ''Sim, sim, Savana..''. ''Pronuncia assim ó 'Savannahh', com o 'a' bem aberto no final''. ''Certo, ok, Savannah, mas o que aconteceu, porque essa mudança repentina?''. ''Ah, eu sempre tive um pé atrás com o nome Cacilda, então resolvi trocar''. ''Trocar? Mas Cacil.., digo, Savannah, nome não é como um sapato que você troca quando enjoa''. ''E por que não? Sempre me achei muito mais Savannah que Cacilda, uma questão de autoconhecimento, entende? Sou muito mais eu agora. Para efeitos legais continuo Cacilda, mas socialmente quero ser conhecida como Savannah''. ''Puxa vida, amiga, que transformação, não sei nem o que dizer''. ''Não precisa dizer nada, basta me chamar pelo meu novo nome de agora em diante''. ''Mas assim, de repente. Me sinto meio estranha, afinal, minha amiga de tantos anos era a Cacilda, não sei o que essa Savannah pode aprontar''. ''Olhe pelo lado bom, você acabou ganhando uma nova amiga''. ''Sei, sei, e de onde você tirou esse nome, pensei que Savannah era a vegetação típica da África..''. ''Olha, já bastam as brincadeiras que faziam com meu antigo nome, não vá você começar com essa agora''. ''Ok, ok, não precisa gritar''. ''Quero respeito, entendeu?''. ''Entendi, olha vou desligar agora, tá''. ''O que houve, Ana, você parece assustada? Alô, Ana?''. Mas a ligação havia sido cortada, Ana não tinha o hábito de conversar com estranhos.


