Dez e trinta da manhã de uma sexta-feira. Meu celular toca e o visor aponta ''número confidencial''. Atendi sem hesitar, mas ao ouvir aquela musiquinha de ligação a cobrar fiquei meio confusa. Quem poderia me ligar de um número não identificado e ainda fazendo com que eu pagasse a conta? Curiosa e, ao mesmo tempo apreensiva, pois poderia ser algum familiar, deixei completar a ligação.
''Mãaae, mãaee. Me ajuda, mãe'', dizia a voz masculina em tom desesperado do outro lado da linha. Fiquei sem reação por alguns segundos, mas já imaginando tratar-se do golpe do falso sequestro. E o interlocutor insistia na apelação, enquanto eu ouvia murmúrios paralelos ao fundo. Não falei nada. Desliguei despreocupada, pois não tenho filho homem e, muito menos, já marmanjo como aparentava a voz.
Imediatamente, liguei para o 190 - a central de atendimento da Polícia Militar. E, seguindo orientação da campanha que a própria PM colocou na televisão, quis registrar a tentativa de extorsão, que poderia ter acontecido. Mais como forma de contribuir com o banco de dados que a própria polícia comunicou estar interessada em elaborar. E, também, para mostrar que os bandidos ainda não desistiram do golpe, apesar da ampla divulgação pela imprensa.
Contei os fatos ao policial que me atendeu e perguntei se a PM tinha como descobrir a origem da ligação e levar a investigação adiante. Ingenuidade de minha parte. Acho que me influenciei pelo seriado norte-americano ''CSI - Investigação Criminal'', que mostra a eficiência da polícia forense na solução de casos de homicídio. Óbvio que a série é carregada de exageros fictícios, mas não custa sonhar que a polícia brasileira evolua a ponto de, pelo menos, aprimorar o uso de técnicas científicas de investigação.
Não quero desestimular as pessoas em denunciar. Mas, fiquei tão frustrada com a resposta da polícia - ''A gente não pode fazer nada'' -, que o arrependimento maior foi de não ter mantido o diálogo com ''meu filho sequestrado''. Se tivesse tido jogo de cintura para ver até onde ia a cara-de-pau dos bandidos, poderia ao menos me ''vingar'' ao final da ligação. E com um vocabulário carregado de malandragem. ''Tá me tirando, truta? Perdeu, mano. Perdeu! Vá se catar otário, que não tenho idade para ser sua mãe''.

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