A sensação de que todos estão cada vez mais impacientes, indisponíveis para um bom ''papo''e sem vontade suficiente para ouvir com calma um ''causo'' interessante não é novidade. E nem é mais só uma sensação. É simplesmente algo que ''faz parte'' do nosso dia-a-dia. Mesmo assim, eu ainda me dou o direito de ficar abalada com determinadas cenas urbanas.
Não que isso vá mudar alguma coisa, a História está pouco ligando para o meu estado de alerta, para os meus instantes de inconformismo, mas, quem sabe você, leitor, possa parar por um minutinho e refletir sobre o que ainda é possível fazer para vivermos de um modo menos banal - para não usar um adjetivo mais dramático.
O mais recente ''abalo'' ocorreu num sábado de sol, no meio do feriado prolongado, quando almoçava com duas amigas. Falávamos amenidades, como pedia a ocasião, e tudo ia bem até que eu percebi a presença de um rapaz sozinho, sentado em uma mesa em frente a que ocupávamos. Ele não teria chamado a minha atenção não fosse por um detalhe: usava fones de ouvido. Aquilo me pareceu insólito demais.
O uso de fones de ouvido por quem está em público me envia mensagens do tipo ''não dirija-se a mim'', ''não quero conversa hoje'', ''sou tímido (a) e daí?''. E os usuários estão, invariavelmente, muito sérios, compenetrados. Cada um na sua, claro. Quem sou eu para criticar comportamentos. E ouvir uma musiquinha enquanto fazemos uma caminhada solitária, aquela ''corrida básica'' ou quando estamos em uma longa viagem de ônibus é até natural. Mas, em um restaurante?!
Fiquei imaginando se o garçom teve alguma dificuldade em compreender o pedido do moço. E me lembrei das vezes em que estava ''muito na minha'', porém sem fones de ouvido, e acabei ouvindo palavras interessantes, animadoras até, de gente desconhecida. Sim, porque, às vezes, basta um ''oi'' para o dia se tornar mais leve, para surgir uma gargalhada, uma amizade - por que não?
Bom, vai ver o tempo está passando rápido demais e eu não estou me dando conta de que os relacionamentos foram alterados para sempre. Naquele mesmo dia, voltando a pé para casa, cruzo com um jovem casal de mãos dadas. E ela usava fones de ouvido.

mockup