Se eu soubesse que aquela manhã fria de quarta-feira seria minha última chance de segurar sua mão e dizer o quanto você é importante, teria voltado ao hospital até o seu último dia por aqui. Se eu soubesse que não ouviria você novamente, nem que fosse para protestar contra as piadas que fazíamos das suas meias coloridas, não teria levado apenas flores amarelas para o seu quarto. Se eu soubesse que você não me ligaria mais para marcar um café, teria ligado antes.
Parece sem sentido falar nessas coisas agora.
Mas nem eu, nem ninguém, poderia saber. Você saiu do hospital provavelmente pensando em nos ver em breve. Nós saímos do seu quarto lembrando dos dias em que trocávamos bilhetes idiotas no meio da aula - só para o professor ler em público e nos matar de vergonha -, das - inúmeras - vezes em que deixávamos de ler os livros do debate para ficar na quadra de vôlei ''só mais um pouquinho'', de quando trancamos a orientadora do colégio na sala e jogamos a chave fora, por ''vingança''. Descemos o elevador rindo. Lembrei da noite em que, na sua provável primeira festa regada com bebida ''de verdade'', tomou um porre com duas cubas.
Você foi. Ficaram as lembranças.
Para minha amiga Andrea Solak, que passou seus últimos dias neste mundo como vou me lembrar dela: sorrindo, sem reclamar das dores da vida.

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