LIGEIRAS - Confissões de uma míope
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de junho de 2007
Ellen Taborda<br> Equipe da Folha 
Aos dezessete anos, tive uma das maiores revelações da minha vida. Pela primeira vez, utilizei um par de óculos de grau. ''Mas todo mundo enxerga assim tão bem?'', me questionava ao andar nas ruas e perceber todos os contornos e cores nitidamente. Aí tudo mudou, nunca mais precisei perguntar para o colega ao lado no cursinho pré-vestibular se o x era ao quadrado ou ao cubo.
Mas aí chegou o tempo da faculdade e da rebeldia. ''Não quero mais saber de ser quatro olhos'', bradei e joguei meus óculos no fundo de uma gaveta. Tudo bem que muitas vezes tive que dispensar o ônibus, parado erroneamente, e levei bronca do motorista. Mas, pelo menos, me livrei do estigma e das contradições tão bem retrados na famosa canção dos Paralamas do Sucesso.
Claro que toda ação leva a uma reação. Minha miopia aumentou horrores e aí não teve jeito: os óculos foram resgatados da gaveta. Um pouco mais tarde, cansada de dizer a todo mundo que ''eu não nasci de óculos, eu não era assim'', resolvi partir para a experiência das lentes de contato.
A auto-estima melhorou e, agora, prestes a largar as lentes para finalmente fazer uma cirurgia de correção, vejo (não com os olhos, mas com a mente) que a pior miopia não é a da visão, mas a dos corações e mentes. Até quando as pessoas teimarão em não enxergar que o mundo depende também delas e não apenas dos outros? A partir de quando elas vão deixar de esperar que os problemas se resolvam sozinhos? Por que, por exemplo, não usamos melhor nossos olhos para acompanhar o que é feito pelos políticos que colocamos no poder? Assim que fizermos isso deixaremos a cegueira para enxergar um futuro melhor, pelo menos para as próximas gerações.


