Depois de quase uma hora de conversa, eu já estava quase contratando aquela senhora como babá da minha única filha. A antiga ajudante estava grávida e eu estava há mais de dois meses procurando uma pessoa, sem sucesso. As entrevistas pareciam filmes de terror ou pegadinha de algum programa televisivo de quinta categoria. Mas aquela era diferente. Uma senhora distinta, bem arrumada, com filhos crescidos e se mostrando bastante interessada e apta para a função.
Quando estávamos nos despedindo, já levantando da mesa com a promessa animada de nos vermos em breve, eu lembrei de uma questão. ''Ah, só mais uma coisinha, dona fulana, para trabalhar aqui em casa tem que ser muito responsável'', brinquei. ''Sabe, como é, não temos família por perto e eu não tenho com quem deixar minha filha se a babá faltar...''
Ela rapidamente, explicou: ''Eu sou 'muita' responsável, dona, mesmo quando saio do bailão a noite, vou direto para o trabalho. No meu último emprego, o vigilante me encontrou caída no trilho de trem de manhã. Eu tinha tomado um porre, mas fui parar em frente ao trabalho, nem faltei porque sou muito 'compermetida'. Com isso, a senhora não precisa se preocupar!''. Não consegui responder na hora, apenas me despedi. E não voltei a ligar.
Fiquei pensando se não estava exagerando. Não achei resposta, ao contrário, lembrei de um dos curtas que integram o filme ''Paris Je' taime'', uma coletânea de trabalhos de 21 cineastas de todo o mundo. Assinada pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles, a história mostra uma mãe que acorda muito cedo, ainda de madrugada, e levanta também uma criança pequena, cantando uma cantiga suave. Agasalha o bebê com ternura e atravessa a cidade para deixá-lo em uma creche.
A mãe volta então para a rua e inicia um verdadeiro périplo em direção a outro destino. Ônibus lotado, chuva e outros percalços. Pega um ônibus sacolejante e caminha alguns quilômetros até chegar em um bairro nobre. Entra numa bela e requintada casa, atrasada, e segue direto para o quarto, onde uma outra criança chora. Ela acalma o bebê com a mesma música que acalentou o filho, há poucas horas, mas já sem tanta ternura na voz. É quase imperceptível a mudança, mas para quem é mãe, a sutileza da interpretação (e da história) comove. Separar-se dos filhos, independente da cultura, do tempo e da distância (algumas, são infinitas) dói. E só quem vê seu coração batendo em outro peito, sabe o que estou falando. É necessário? Sim, mas nem por isso, o sofrimento é menor.

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