LIGEIRAS - A anticrítica da arte
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Maria Duarte<br>Equipe da Folha 
Não sou crítica de arte. Não acompanho com grande atenção a carreira de artistas, sejam nacionais ou estrangeiros. Mas não pude deixar de notar a comoção que causou a exposição daquele artista costa-riquenho que manteve um cão amarrado para morrer de fome.
Confesso, do alto da minha ignorância artística, que não consigo entender como amarrar um animal e assisti-lo sofrer até as portas da morte pode se enquadrar como arte (sou daquelas ingênuas incuráveis que associa a palavra arte a algo elevado). Realmente, chama a atenção, choca. Provoca reações no público.
Afinal, assistimos diariamente a pessoas morrendo de fome e frio em nossas calçadas - e não fazemos nada. Não chamamos de arte (não chamamos sequer a assistência social). Fome, sofrimento e morte fazem parte da vida. Acompanhamos o sofrimento alheio com uma dose de anestesia no olhar.
A pergunta é piegas, mas que direito tem uma pessoa de sentenciar a morte de um bicho (cão, homem, macaco ou o que quer que seja)?
Li em algum lugar que a obra foi inspirada na morte de um imigrante nicaraguense de 24 anos que acabou devorado por cães. Esse fato foi filmado por câmeras e policiais que estavam por ali não atiraram contra os cachorros porque podiam ferir o homem. Trágico, com certeza.
Mas daí a matar um cão de fome enxergo um abismo, sem conseguir ligar uma coisa com a outra. Para começar, o cão que vai morrer para servir de espetáculo não foi o que matou o rapaz.
Dizem que não se sabe se o cão morreu mesmo de inanição e que circula um abaixo-assinado na internet contra a participação do artista em uma bienal. Não vi esse tal documento e não sei se surtirá efeito. Então, se alguém encontrar um cão acorrentado e com fome em algum lugar, por favor, desamarre a corda.


