Lidando com circunstâncias próximas do limite
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Fábio Galão<br> Equipe da Folha 
Um incêndio, um acidente de trânsito, uma briga em que alguém acaba ferido ou até mesmo um tombo feio na calçada. Situações de tensão e sofrimento como essas são o ''material de trabalho'' dos bombeiros lotados nos vários postos da corporação em todo o Paraná.
Alguns desses profissionais, entrevistados pela FOLHA, alertam que, para lidar com circunstâncias próximas do limite, é necessário ter vocação e equilíbrio - sem esses fatores, fica difícil permanecer na carreira. ''Depois de 24 horas de trabalho, você sai cansado, moído. Mas é gratificante saber que você está prestando um serviço tão importante para a população'', afirma o soldado Wellyngton Djiorgen Martins, de 40 anos, há 19 como bombeiro e há 15 anos como socorrista.
''Na época em que entrei para a corporação, estava desempregado e ser funcionário público parecia uma boa opção. Entrei para ficar só cinco anos, gostei e estou aqui até hoje porque me identifiquei com o serviço'', explica Martins. Com alguma experiência como bombeiro, o soldado decidiu fazer o curso de socorrista. Desde então, busca aperfeiçoar o trabalho através de cursos relacionados à área de saúde.
O aspirante Tiago Zajac, de 23 anos, concluiu recentemente o curso de formação de oficial. Desde 26 de dezembro, está lotado no quartel central de Curitiba, onde faz gerenciamento das ações dos bombeiros nas várias ocorrências. ''Faço acompanhamento, cuido da questão da segurança, passo orientações sobre táticas e técnicas na hora de agir, verifico o trabalho que está sendo feito'', relata Zajac.
Ele explica que o curso de oficial, que dura três anos, abre poucas vagas - ''quando entrei, eram 10 vagas'' - e a seleção é feita por meio da prova do vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O concurso público para soldados ocorre com mais frequência e chega a abrir 300 vagas a cada processo seletivo. O curso tem um ano de duração.
No quartel central de Curitiba, as três equipes operacionais se revezam em turnos de 24 horas de trabalho por 48 de descanso. Segundo o sargento Alexandre Vieira, de 31 anos (há 12 na corporação), os socorristas, que passam por um treinamento de quatro meses, seguem um protocolo que faz com que o atendimento seja igual em todos os lugares do Paraná onde haja o Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência (Siate).
''Nossa ambulância possui o equipamento de suporte básico de vida, com estrutura para controle de hemorragia, imobilizar fraturas, remoção de vítimas, entre outras situações'', diz o sargento. Dependendo da situação, os bombeiros solicitam o apoio médico, que possui o suporte avançado de vida, para condições mais extremas.
O ''extremo'', aliás, pode se tornar rotina. Há poucas semanas no quartel central, o aspirante Zajac já guarda na memória pelo menos uma ocorrência marcante: um grande incêndio numa fábrica de salgadinhos na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), no último dia do ano passado. ''Foi uma grande experiência. Comandei a equipe sem descanso, durante o dia e a madrugada. Só dormi três horas naquele dia'', lembra o aspirante. ''Decidi ser bombeiro porque gostava da vida militar. Nos bombeiros, existe a oportunidade de ajudar as pessoas e essa é uma corporação bem vista pela população.''
O soldado Martins destaca que o trabalho exige que o bombeiro aprenda a dosar as emoções. ''Cheguei a um patamar de tanta frieza que não me choco mais com as coisas que vejo. Se eu me envolver emocionalmente, não vou poder dar o melhor de mim'', acredita.
Entretanto, é impossível ser bombeiro sem guardar recordações. ''Lembro-me de duas situações especiais. A primeira foi na virada de Ano Novo de 1995 para 96. Houve um acidente feio na Visconde de Nacar, esquina com Martim Afonso, uma batida envolvendo três veículos, seguida de capotamento. Um rapaz de 16 anos teve parada cardíaca. Ficamos uns 50 minutos cuidando dele e ele chegou vivo ao hospital. Duas semanas depois, ele veio ao quartel, andando, para nos agradecer. Ficamos sabendo que ele não teve sequela nenhuma'', conta Martins.
A outra situação ocorreu meses depois daquele acidente. ''Num acidente de trânsito, um rapaz foi arremessado do carro onde estava e ficou embaixo de outro. Quando me agachei para olhar debaixo do veículo, uma luz bateu no refletivo do meu colete. O rapaz viu aquela luz, beijou minha mão e disse: 'Meus anjos chegaram'. Infelizmente, ele morreu momentos depois, dentro da ambulância'', recorda o soldado Martins, que lamenta: ''Nem sempre você vence''.


