Palco de passagens importantes da história do Estado e até do País, a pequena cidade da Lapa, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), é a única do Paraná cujo Centro Histórico foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ao todo, são seis tombamentos pelo Iphan no município, a maior concentração do Estado. Morar lá ou visitar a Lapa é se deparar constantemente com a noção de tempo.
Morador do Centro Histórico, Sergio Dal'Lago, de 55 anos, diz que viver ali é um privilégio, e a cidade não está muito diferente daquela que conheceu na infância, o que mudou foi o comportamento das pessoas. ''Mudou o café, mas o bule é o mesmo'', compara. ''Hoje as portas estão fechadas, antigamente as casas ficavam abertas. Era comum colocar cadeiras de palha em frente às residências. Hoje não se tem mais tempo de sentar com os amigos e conversar. A vida mudou.''
Lapeano, Dal'Lago mora na casa que foi dos avós. A edificação tem aproximadamente 140 anos e, para ele, morar ali representa conviver com o passado, o presente e o futuro num só lugar. ''Se essas paredes falassem, quantas histórias, quantas conversas elas contariam? Quantos gritos de criança elas já ouviram? Meus avós tiveram 12 filhos'', comenta. ''Será que daqui a alguns anos ainda vai estar conservada? Hoje a lei exige, mas nunca se sabe. E se mudar?''
Juciliana Ramos Wagner, de 32 anos, é outra que se diz privilegiada. ''A gente se sente orgulhoso de ser dessa terra. Desfrutamos todo dia a beleza da cidade. Não canso de olhar a praça'', diz Juciliana, ressaltando que nem todos pensam como ela e a maior parte da população só passou a ter noção do que é o patrimônio histórico a partir do tombamento de todo o Centro Histórico na década de 90.
Também moradora da Lapa, Moana Lipski Bueno, de 24 anos, reconhece que para quem sempre viveu rodeada pelos casarões antigos é mais difícil notar a riqueza do lugar. ''Na verdade a gente não dá muito valor. Quando as pessoas vêm e dão valor é que a gente percebe mesmo'', afirma. Mãe de Guilherme, de 6 anos, Moana sempre leva o filho e os sobrinhos à Casa de Câmara e Cadeia, edificação de 1868 que atualmente abriga o Museu de Armas. ''O pessoal reclama que a cidade é muito parada. Mas tem uma história e a gente está sempre tentando mostrar isso para as crianças'', conta.
Wilma Gogola Druss, de 42 anos, diz que não troca sua cidade por nenhuma outra. ''Aqui tem ar puro, tranquilidade, as crianças podem brincar na rua.'' Segundo Wilma, grande parte dos turistas encantam-se tanto com a Lapa que dizem ter vontade de se mudar para lá. ''Muitos perguntam os preços das casas e já tem bastante gente de fora comprando chácara. Não é um nem dois que dizem que vêm morar aqui depois da aposentadoria.''
Para Antonio Corrêa, de 65 anos, visitar a Lapa tem um gostinho especial. A avó de Antonio era lapeana. E ele volta à cidade para comer num restaurante local o virado de feijão preparado como o que sua avó fazia. Ele lembra também que a avó costumava contar aos netos sobre conflitos históricos testemunhados por ela na infância. ''Minha avó viu tudo aqui e contava pra gente, quando éramos crianças, tudo aquilo que ela viu quando era menina. Hoje é que a gente gostaria de sentar e ficar ouvindo'', conta.
Antonio e a esposa Terezinha moram em Curitiba e costumam visitar a Lapa até quatro vezes por ano. Sentados num banco da Praça General Carneiro após o almoço, eles curtem a tranquilidade do local e refletem sobre o tempo. ''Nós estávamos fazendo as contas da idade dessa igreja (a Matriz de Santo Antonio). Tem 223 anos, quando ela fizer 250 eu já não estou mais aqui'', observa Antonio.

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