Lições de escola e de afeto
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quarta-feira, 15 de abril de 2009
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Desde fevereiro, o pequeno Maurício Krasovski, sete anos, precisa ficar internado no Hospital Erasto Gaertner, de tempos e tempos, para tratamento de leucemia. O menino e a mãe, a lavradora Leotilde, 37, enfrentam duas horas e meia de viagem da Colônia Seis de Fluviópolis, na zona rural de São Mateus do Sul, onde moram, até Curitiba. Longe de casa, Leotilde imaginava que o filho também ficaria longe da sala de aula e assim, seria prejudicado nos estudos. "Não esperava que houvesse aulas dentro do hospital e que o Maurício pudesse continuar os estudos aqui. Fiquei muito feliz porque ocupa o tempo e a cabeça dele. Funciona mesmo", disse Leotilde.
Durante o internamento, Maurício é atendido por professoras da rede municipal de ensino que dão continuidade ao mesmo conteúdo pedagógico desenvolvido no colégio regular onde o garoto está matriculado no segundo ano do ensino fundamental. O Erasto Gaertner - referência em tratamento oncológico -, assim como outros sete hospitais do Estado, oferece aos pacientes em idade escolar a possibilidade de estudar todas as disciplinas dos colégios com professores especializados do programa Escolarização Hospitalar.
"Entramos em contato com a escola de cada paciente para que elas nos repassem o conteúdo ou as apostilas. Fazemos atividades e até prova com eles. Muitas vezes, conseguimos recuperar o que a criança perdeu na escola e algumas até que deram um salto no aprendizado, porque damos atenção individual e isso é um ganho de qualidade", explica a professora de rede municipal Mirta Pacheco. Quando o programa não consegue se comunicar com a escola de origem do paciente, adota as diretrizes pedagógicas do sistema de ensino municipal para elaborar as atividades.
"É tudo muito sério. Quando fazemos provas aqui, depois encaminhamos para a escola junto com uma declaração, tudo acatado pelo Ministério da Educação. O Maurício, inclusive, fez a Provinha Brasil conosco. Ele é um aluno excelente, acredito que a professora sinta falta dele", disse Mirta. Depois de 15 dias internado, Maurício volta para a cidade dele, onde continua o processo de aprendizagem praticamente sem prejuízos, segundo a mãe. "Na verdade, ele não quer nem ir embora daqui, ele adora a escola dentro do hospital. As aulas são muito importantes para a recuperação do meu filho", acredita Leotilde.
Antes das aulas, Giovanna Santana, 4, costumava chorar durante o tempo que ficava internada. "Estamos há oito meses fazendo o tratamento dela, e depois que descobrimos o atendimento das professoras, a permanência dela aqui melhorou bastante, porque o tempo passa mais rápido. Ela se desenvolveu bastante fazendo as aulas de pintura e brincando com os jogos. E veja que ela parou de chorar", relata a mãe de Giovanna, a dona de casa Vanessa Santana, 27 anos, que mora em Rio Branco do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba.
"A gente precisou orientar a escola para que a apoiasse a Giovanna nesse momento da vida dela. Durante o tratamento, ela vai precisar ficar asfastada algumas vezes, já a quimioterapia dura cerca de dois anos. Terá dias que ela não se sentirá disposta mesmo. Muitas escolas ainda não sabem lidar com as crianças em tratamento do câncer", alerta a professora Mirta.
Uma escola mesmo
Segundo Iolanda de Assis Galvão, psicóloga clínica de Pediatria e Cuidados Paliativos do hospital, o programa existe na instituição desde 1991, mas neste formato, com vários professores especializados, desde junho de 2007. "Antes era apenas um acompanhamento, agora é uma escola mesmo, damos continuidade ao processo de escolarização dos pacientes. A proposta é que eles voltem aos colégios de origem sem se sentirem atrasados em relação aos colegas e sem receberem faltas", contextualiza.
Ao todo atuam no Erasto Gaertner três professores do município, três do Estado e uma pedagoga. No Estado, aliás, o programa ganha o nome de SAREH (Serviço de Atendimento à rede de Escolarização Hospitalar). "Procuramos enxergar o paciente como um ser total, apenas uma parte dele está doente. O restante, o seu cognitivo, intelecto e o social estão preservados, então promovemos um resgate e manutenção dessas esferas saudáveis. E a Escolarização Hospitalar faz muito bem esse trabalho de fortalecer a autoestima. Não devemos dar à doença a posição de majestade", detalha Iolanda de Assis Galvão.
Para incentivar os pacientes a participarem do Escolarização Hospitalar, todo o ano, o projeto Paciente Nota 10 premia um paciente do Erasto Gaertner com um computador - doado por colaboradores. No ano passado, uma menina de 13 anos de Santa Helena, em Santa Catarina, foi a vencedora depois que garantiu um ano escolar brilhante, apesar de estar em tratamento do câncer.


