Libras para todos
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terça-feira, 06 de janeiro de 2009
Diogo Cavazotti<br>Equipe da Folha 
"Considera-se deficiência auditiva a perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500Hz, 1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz". A classificação consta na lei federal número 10.436, de 24 de abril de 2002. Para estabelecer uma forma de comunicação com os deficientes auditivos, criou-se a Libras, Língua Brasileira de Sinais, inspirada na língua de sinais da França. Estima-se que aproximadamente 5 milhões de pessoas dominem a língua gestual no Brasil, segundo a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis).
Na Libras é possível soletrar as palavras ou também fazer gestos que significam um termo, uma expressão ou uma frase. Ela não é a simples gestualização da Língua Portuguesa mas sim uma língua à parte. Lembrar o que cada sinal significa não é fácil. Um dedo dobrado pode alterar o sentido da comunicação e como qualquer língua também existem diferenças regionais.
Há dois anos a estudante Isadora Vas, 16 anos, de Curitiba, começou a estudar a linguagem dos sinais. Ela sempre achou interessante saber se comunicar desta maneira e possui diversos amigos que também estudam Libras. Além disso, sentiu-se atraída por saber que algumas instituições de ensino oferecem descontos especiais para quem sabe os sinais de comunicação entre os surdos, já que podem fazer a tradução na sala de aula.
Obter o currículo diferenciado também foi um atrativo. A jovem vai prestar vestibular para Administração e considera que o fato de dominar a linguagem vai ser um ponto positivo na hora de conseguir emprego. Ela também domina Inglês e Francês e considera que a linguagem dos sinais exige cuidado na entonação. "Libras tem expressão corporal. Nesta língua podemos mudar o sentido da frase dependendo da entonação", explica a estudante.
A mãe de Isadora estudava Libras com ela. Depois vieram alguns amigos, a avó e a tia. "Minha mãe sempre esteve envolvida com crianças especiais. Isso facilitou o interesse pela técnica", conta.
Há alguns anos a professora Ana Nely Hansch, moradora de São Bento do Sul, em Santa Catarina, foi obrigada a aprender a língua dos sinais. Ela começou a lecionar para crianças de três a 13 anos com deficiência auditiva. No começo enfrentou dificuldade, pois não dominava a Libras. Procurou aprender todo o alfabeto para depois pesquisar em apostilas e com algumas amigas as palavras e expressões. Como praticava todos os dias na sala de aula, em apenas dois meses já tinha bastante conhecimento sobre a técnica.
"Eu tive uma aluna de três anos que chegou na sala e me contou que havia visto uma vaca na estrada morta por um soldado. Eu consegui entender tudo", conta Ana Nely. A surpresa ocorreu já que, na idade da aluna, ainda é difícil dominar a Libras. Por isso elas utilizam a mímica para se comunicarem. Com o tempo o alfabeto é introduzido na educação. A professora chegou a traduzir uma missa inteira para os alunos.
Ana Nely acha a Libras semelhante a qualquer outro idioma e é necessário prática para não perder por completo o conhecimento da língua. Ela acredita que deveria ser obrigatório o ensino da linguagem dos sinais no Ensino Médio. "As pessoas deveriam ter pelo menos uma noção. Tenho uma sobrinha que estuda enfermagem. Ela já fez o curso de Libras para poder prestar um atendimento completo no local onde irá trabalhar. É necessário ter respeito à deficiência de cada pessoa. Quanto mais integrarmos as pessoas, menos guetos serão criados por conta da exclusão", opina a professora.
Ajuda para a integração
- Uma organização sem fins lucrativos, chamada Associação do Jovem Aprendiz (AJA), promove ações para a inclusão de pessoas com deficiência auditiva e para o ensino da Libras. Ela possui cursos a distância de capacitação e docentes para comunicação em Libras. Com o objetivo de aumentar a empregabilidade e a cidadania, a AJA faz cursos para empresas públicas e privadas. A associação atua em todo o Brasil. Mais informações na internet: www.libras.org.br
Legislação da Libras
- Confira os pontos principais na lei brasileira que regulamenta a linguagem dos sinais:
A lei federal número 10.436, de 24 de abril de 2002, dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Entre as determinações está o dever, por parte do poder público em geral e das empresas concessionárias de serviços públicos, de apoiar o uso e a difusão da língua dos sinais. As instituições de assistência à saúde também devem garantir atendimento adequado aos portadores de deficiência auditiva.
No decreto número 5.626, de 22 de dezembro de 2005, a Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.
Em sete anos, 100% das instituições de ensino médio que oferecem cursos de formação para o magistério na modalidade normal e as instituições de educação superior que oferecem cursos de Fonoaudiologia ou de formação de professores devem incluir Libras como disciplina curricular. O processo de inclusão da Libras como disciplina curricular deve iniciar-se nos cursos de Educação Especial, Fonoaudiologia, Pedagogia e Letras, ampliando-se progressivamente para as demais licenciaturas.
Além disso, as instituições de educação superior, principalmente as que ofertam cursos de Educação Especial, Pedagogia e Letras, devem viabilizar cursos de pós-graduação para a formação de professores para o ensino de Libras e sua interpretação.


