"Quem não gosta de Carnaval fica em Curitiba no feriado". Essa famosa frase costuma ser ouvida por aqui em todos os anos. Mas ela não é totalmente verdadeira. Os foliões da Capital realmente caíram no samba no sábado, quando as escolas Leões da Mocidade, Embaixadores da Alegria e Acadêmicos da Realeza entraram na Avenida Cândido de Abreu.
Com um samba-enredo que retratou o povo nordestino, a Leões da Mocidade abriu a noite de desfiles das escolas do grupo especial. O primeiro carro alegórico teve como destaque Karina Nunes da Silva, grávida de quatro meses. Durante três anos ela foi passista de chão e neste ano foi presenteada com o destaque na alegoria. "Tem que mostrar a história do enredo, interpretar e acreditar", conta.
A comissão de frente era tímida mas apresentou com esforço a coreografia, que retratou os pescadores do Nordeste. Com baianas coloridas e crianças com o enredo na ponta da língua, a escola empolgou a plateia com a bateria. As passistas, de corpos quase nus, exibiam o samba no pé na frente dos flashes dos fotógrafos que cobriram os desfiles. A Leões da Mocidade também mostrou cangaceiros e a tradicional festa junina. O destaque do segundo carro foi o nordestino Ceará, proprietário do Calamengau, tradicional casa noturna de Curitiba, especializada em forró.
A escola, que teria três casais de mestre-sala e porta-bandeira, só apresentou uma dupla. A forte chuva que caiu impossibilitou a chegada dos demais. Assim, o casal Jeandro de Moura Neves e Wannelly Miranda reinaram na avenida. O filho deles também esteve no desfile. "Fiquei muito emocionada. Defilei por seis anos seguidos mas estava há cinco afastada. Estou com a sensação de dever cumprido", diz Wannelly.
Quem ensaiou o dupla foi o ator e diretor de teatro Olinto Simões. Os encontros foram realizados três vezes por semana durante dois meses. "Para a gente que trabalha o dia todo e ainda ensaia a noite é difícil. Mas eles fizeram bonito e retrataram muito bem os reis do Maracatu", comenta Simões.
A Embaixadores da Alegria foi a segunda a entrar na avenida e distribuiu a letra do samba-enredo para parte das 10 mil pessoas que assistiram ao desfile. A escola se inspirou na travesti Gilda, assassinada há alguns anos, e retratou a história do beijo. Gilda era conhecida por ficar na região da Boca Maldita e dar um beijo nas pessoas que não doavam dinheiro para ela. Em troca de uma esmola ela também beijava alguns políticos que passavam pela região.
Com grandes penas de pavão, a comissão de frente abriu espaço para a escola. A primeira alegoria, com 10 pessoas, mostrou que os integrantes estavam com o enredo na ponta da língua. A escola apresentou alas e carros bem coloridos, assim como um verdadeiro beijo deve ser. A FOLHA teve representante na avenida. O repórter do caderno de esportes Júlio Cesar Lima foi um dos destaques fantasiado de padre.
"Um beijo no seu coração, é dado pela Embaixadores. O desejo vira sedução, encantando os torcedores". O fácil refrão colaborou para o público acompanhar a bateria, que fez bonito com as "paradinhas". O intérprete da escola, Newton Duarte, é músico profissional e teve cuidado especial com a voz durante três meses antes do desfile.
O cozinheiro Edilson Marcelino foi o destaque da escola. Ele entrou no último carro e representou a travesti Gilda. "Foi ótimo. Quando visitei a escola surgiu o convite e fiquei superfeliz. Ela foi a primeira pessoa que brigou pelo direito dos homossexuais em Curitiba", conta Marcelino. "Relembrando o beijo da Gilda, faz acontecer uma transformação, é a arte imitando a vida", cantou a Embaixadores da Alegria.
A Acadêmicos da Realeza, bicampeã, levou para a avenida os 100 anos do Coritiba Futebol Clube. Com fantasias requintadas e um samba-enredo fácil de decorar, a escola levantou o público com uma bateria ensaiada. O carro abre-alas contou com personagens conhecidos das colunas sociais de Curitiba, como a empresária Sônia Bacellar, o cabeleireiro Riccardo Guerra e o maquiador Beto Bravo. O segundo carro era um grande bolo de aniversário com o mascote do Coxa na cobertura.
A rainha da bateria, com um corpo digno de levantar qualquer torcida, animou o ânimo dos homens que estavam na arquibancada. Também chamou a atenção o requinte da fantasia do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Para acalmar os demais integrantes da escola, desfilou uma ala em homenagem ao Atlético Paranaense e ao Paraná Clube. Porém, a torcida do Coritiba não entrou no clima de Carnaval e hostilizou as duas alas com palavrões e gestos obscenos.
O desfile das três escolas do grupo especial começou às 22h45 e terminou às 2h30. Confira a apuração do Carnaval 2009 na reportagem de Omar Godoy, na págima 3.

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