Lendas revelam a cultura de um povo
Histórias de assombrações e lendas são formas narrativas e, como tal, transmitem informações a respeito do grupo, segmento ou classe social a que se referem, segundo a historiadora e antropóloga Márcia Kersten, professora aposentada da Universidade Federal do Paraná. ''De ampla circulação, e transmitidas oralmente, essas narrativas passam de geração à geração e são resignificadas. Recorrem, pode-se dizer, a um nível de conhecimento comum (tradicional) mais profundo, baseado em pressupostos inconscientes ou parcialmente conscientes. O termo lenda é, por vezes, utilizado de forma pejorativa para se referir às crenças comuns'', explica a professora.
Para Márcia Kersten, o homem moderno e a crença do progresso cietífico não vão acabar com as lendas. ''Histórias de bruxos e bruxas, fadas e entidades maléficas estão 'na moda', dão Ibope e vendem livros e revistas. O progresso científico ao desvelar a natureza derrubou, até certo ponto, os limites tradicionais do conhecimento humano. No entanto, não devemos nos enganar. Este conhecimento é a consolidação de idéias e observações milenares, que ao se encaixarem e se ajustarem permitiram pensar de forma matemática e abstrata a realidade.''
Segundo a professora, seria impossível compreender a proposta racional da ciência moderna sem considerar o pensamento mágico, as influências religiosas, políticas e sociais. ''Não se pode esquecer que a totalidade do real é inatingível e que a ciência reconstrói a cada momento nova interpretação, pois ela tem dimensão histórica'', avalia.
Márcia Kersten alerta que em geral é sempre a crença do outro que é tida como supersticiosa, nunca a nossa. ''O pior bárbaro é aquele que crê na barbárie, já diziam os filósofos. Entretanto continuamos a creditar ignorância, primitivismo ou subdesenvolvimento àqueles que não comungam das nossas crenças. Mas apelamos para o universo mágico quando nos sentimos acuados pela racionalidade e a impessoalidade que comandam as sociedades contemporâneas: o trevo de quatro folhas, a ferradura, o vaso com diferentes tipos de ervas ''curativas'', e mais uma lista que se estenderia por inúmeras páginas'', justifica.
De acordo com a professora, o que devemos considerar é que 'crenças' e manifestações culturais têm sentido por estarem referenciadas a contextos sociais, históricos e culturais. ''Não são meras sobrevivências de um tempo remoto, que insistem em permanecer em sua forma 'original', são dinâmicas e como tal re-significadas a todo momento'', explica. (D.R.)





