Lendas resistem aos tempos modernos
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quinta-feira, 28 de junho de 2007
Fábio Galão<br> Equipe da Folha 
As lendas são parte importante da cultura popular e dizem muito sobre as localidades de onde se originam. Muitos habitantes do Paraná e da Região Metropolitana de Curitiba têm a cabeça cheia dessas crendices, algumas delas catalogadas em um caderno lançado recentemente pelo programa Paraná da Gente, da Secretaria de Estado da Cultura.
Em Agudos do Sul, as pessoas que moram no município há bastante tempo contam a lenda da Cobra Gigante. Ainda que o relato da crendice venha se perdendo ao longo das gerações, quem chega à cidade mais cedo ou mais tarde se depara com a história fantástica.
''Pessoas de mais idade comentam que a cobra estaria debaixo da praça principal da cidade, e o corpo dela iria até a Igreja. A cobra estaria com a cabeça embaixo dos pés de Nossa Senhora, e por isso não conseguiria sair'', diz Miriam Martins Wajima, proprietária de uma lanchonete e moradora de Agudos do Sul há oito anos. ''O engraçado é que parece que tem a mesma história em várias cidades''.
A exemplo do que acontece com outras lendas, a crendice da Cobra Gigante tem diferentes versões. Segundo a aposentada Darci Paula Ribas Munhoz, que nasceu em Agudos do Sul, na verdade a cobra ficaria debaixo da área da antiga igreja, que não existe mais. O local fica a poucos quarteirões da Igreja atual.
''Dizem que veio um padre para cá e parece que houve uma intriga. Por isso, o padre rogou uma praga sobre a cidade, disse que ela nunca iria crescer. Falam que daí teria surgido a cobra. A cabeça ficaria embaixo da igreja antiga, que era uma capelinha de madeira que não existe há mais de 40 anos'', diz dona Darci.
A aposentada afirma que a lenda da Cobra Gigante e outras crendices já foram mais comentadas em Agudos do Sul. ''A gente ouvia muitas coisas dos contadores de causos, mas isso faz muito tempo''.
Diante da velocidade de informação da sociedade atual, é natural que as lendas percam seu fascínio (veja texto nesta página). Elas resistem geralmente em comunidades rurais, em que a vida pacata abre espaço para relatos que contrariam o ceticismo.
Em Campo Magro, na região do Campo Novo, é difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar da lenda da Lagoa Feia. O comerciante Antônio Assunção, proprietário da chácara onde está localizada a lagoa, conta que ficou sabendo da crendice depois que adquiriu a área, há sete anos.
''Falam que há mais de 100 anos havia uma igreja católica e que numa Sexta-feira da Paixão o pessoal estava se reunindo para um baile. Aí, teria aparecido um velho, que alertou: 'Não abusem, que a igreja vai afundar'. E naquela noite a igreja afundou'', diz Assunção. No local da igreja, teria surgido a Lagoa Feia. Os corpos das pessoas que participavam do baile e os destroços da igreja nunca teriam sido encontrados.
A partir daí, cada morador adiciona um detalhe à lenda. Já se falou que nas noites de Sexta-feira da Paixão é possível ouvir choro e gritos perto da Lagoa Feia. Que a lagoa muda de cor quatro vezes por dia. Que a figura de um padre e até o boitatá já teriam aparecido nas imediações.
Djalma José Pinheiro, caseiro da chácara de Assunção e morador da região há 20 anos, garante que apenas uma vez viu algo inusitado na área da Lagoa Feia. ''Teve uma vez em que eu estava prendendo os patos e a água da lagoa veio e voltou três vezes sobre a mureta onde eu estava. Eu não sei se pode ter a ver (com a lenda), mas...''
Assunção ri dos comentários da população do Campo Novo, mas considera importante que a lenda continue a ser contada. ''É uma crendice que faz parte da história da região, da cultura da comunidade. Que mal existe nisso?''.


