Lembranças perdidas
A casa ao lado da igrejinha é da família de Orídes Senter, 53 anos, vigia do espaço de festas da Colônia Trentina. O sobrenome dele consta na lista das primeiras famílias a se instalarem na região. Entre as histórias dos avós, ele conta a do dia em que a avó queimou e quebrou todas as lembranças italianas: fotografias e outros registros. Entre essas fotos, uma do avô, Paolo Senter, aos 11 anos, ainda na Itália, pouco antes de desembarcar no Brasil. "Ela achava que era maldição ter essas coisas. Hoje eu gostaria de ter esses registros", lamenta.
Não tem as fotos, mas guarda com carinho uma marreta que pertence à família desde os tempos italianos. "Essa é uma relíquia que não quero me desfazer", diz, mostrando o objeto e contando que, com ele, o avô ajudou a construir a estrada de ferro entre Curitiba e o Litoral.
Desse tempo, ele recorda da vida tranquila, dividida entre a lida no campo, a criação de animais, a missa e as festas. "O italiano é um povo muito extrovertido. Eu lembro que a gente ia na missa, os mais velhos ficavam cutucando os mais novos quando o padre não estava olhando. Era tudo maloqueiro", resume Senter, aos risos. E constata: "Hoje não tem mais isso. O pessoal fica quieto".
Sobre o espírito de ser trentino que está a se perder, Senter acredita que isto está estritamente ligado à agricultura. "Foi a agricultura que se perdeu. Quando eu era criança, trabalhava na roça, plantando batata. Ninguém quer mais isso", afirma.
Ele resume o atual estado da colônia em um estranho jogo de palavras: "Começou com esse fim (a agricultura) e terminou com esse fim". Senter elabora a frase quase sem querer e, apesar do conteúdo, a diz sem nenhuma melancolia, extrovertido como um italiano. É a prova que nem tudo está perdido. (T.A.)





