Lembranças, passado, presente e realidade
Também iraquianos, o pai, Khaled Sabri Qodisieh, junto com a mulher, Iklas Ata Al Bayati, e os filhos, Mustafa, 21 anos, e Farah, 9 anos, chegaram ao Brasil há dois anos. Depois de sete anos vivendo em barracas no campo de refugiados Rweished, no deserto da Jordânia, convivendo com cobras, ratos e muitos insetos, a possibilidade de recomeçar uma vida no Brasil parecia um sonho.
A família vive hoje em uma casa simples, próxima ao centro de Dois Vizinhos, com conforto, mas pouco luxo. Pai e filho logo conseguiram emprego na indústria de alimentos e, desde que chegaram, recebem assistência financeira do programa da ONU, cerca de R$ 1,3 mil. A ajuda termina em três meses. E para Khaled, a vida não anda nada fácil.
''Nos tiraram da guerra para nos largar aqui. Antes a vida era preta. Mas agora também não quero mais essa vida. Quando viemos, estávamos felizes. Parecia tudo lindo. Eles arranjam emprego e oferecem várias ajudas. Mas, aos poucos, tiram a mão'', afirma sobre a ajuda de custo que logo deixarão de receber.
Khaled reclama. Às vezes, pede ajuda para comprar remédio e ouve como resposta a falta de mais dinheiro. Outra frustração da família é a promessa não cumprida de que receberiam aulas de português. Sem falar bem a língua, a mãe, Iklas, diz não conseguir arranjar um emprego para ajudar nas contas de casa. ''Aqui não tem como trabalhar porque eu não sei a língua. Quase não dá para sair de casa'', lamenta.
Ahmad Nabil Younes, 29 anos, também saiu do Iraque por causa da guerra. Ele trabalhava na polícia palestina. Durante um combate com seu grupo de 40 soldados, foi um dos dois sobreviventes. Também esteve sete anos no campo de refugiados na Jordânia. Uma das principais lembranças dele é a comida suja. Veio ao Brasil junto com Khaled e outros 108 refugiados nas mesmas condições.
Younes trabalhou durante um ano na indústria, mas deixou o emprego e, desde então, não conseguiu uma nova colocação. Sonha em montar uma loja de conserto de celulares e coloca a conquista nas mãos de Deus. ''Deus vai abrir uma porta. Ele não deixa ninguém sozinho. Não gosto de dinheiro. Só quero uma vida pequena para mim''. Mesmo com passagem sofrida em seu país de origem, gosta muito do Iraque e não tem nada contra o ex-ditador Saddam Hussein. ''Ele abriu as portas para o meu pai, que era da Palestina. Sou grato a ele'', diz.
Apesar de gostar do país, as chances de Younes ou dos outros refugiados voltar é remota. O refúgio é concedido àqueles que viviam em situação de ameaça ou perigo. Bem diferente da tranquila Dois Vizinhos, que viu sua rotina mudar há 20 anos.
A transformação veio quando a unidade industrial voltou, aos poucos, sua produção de frangos para o mercado muçulmano, especialmente no Oriente Médio. Para a adaptação da fábrica foram contratados funcionários muçulmanos em razão do abate Halal (veja box). São imigrantes, grande parte do Líbano, brasileiros descendentes e vários muçulmanos refugiados.
Os números precisos não são divulgados pelos órgãos oficiais porque o refugiado tem toda a liberdade de se locomover dentro do país. Chegando ali, todos passam a ser cidadãos dois-vizinhenses. A única ajuda oferecida pelo Consulado do Iraque no Brasil é o custeio da viagem de retorno. Possibilidade descartada pelos refugiados acolhidos no Paraná. (M.R.M.)





