Leitão, ponta de costela e R$ 500
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segunda-feira, 16 de março de 2009
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Mesmo que o dia de São José seja apenas na quinta-feira, a comunidade do Marmeleiro, em Almirante Tamandaré, já festejou o santo no final de semana. Almoço com frango e churrasco, missa e 130 prêmios no bingo do salão da paróquia Nossa Senhora da Luz. ''Já ganhei pano de prato, leitão, jogo de copos, dinheiro'', diz a agricultora Marilete Brejeski Bueno, 54, que chegou de carro à festa. Ela teve sorte mais uma vez: levou um dos 22 prêmios surpresa. ''Às vezes é bomba, mas foi uma balança de cozinha. Não vou mais ter de emprestar do sobrinho'', afirma sorridente.
Todos os prêmios são doados pela comunidade, que tem na festa a possibilidade de arrecadar fundos para a igreja. Isomira Dal Pra Trevisan, 87, caminha os 200 metros que separam a sua casa, construída em 1886, da paróquia. ''Sou a mãe de Marmeleiro'', resume. Nos oito alqueires que circundam a residência de dois andares, em que também viveram três filhos do próprio ventre e 17 de criação, tem gado, carneiro e galinha. Para a festa de São José, doou dois dos prêmios principais - um fogão a gás de quatro bocas e um tanquinho de lavar roupas -, além de outros, menores, como uma cesta de perfume. ''A festa já existia quando cheguei aqui, há 64 anos.''
Inicialmente, a comunidade só comemorava o dia da padroeira, Nossa Senhora da Luz, em setembro, a festa maior, em que recebe muitos cavalheiros da região. No domingo, José e Nosley Bazzani e Roberto Votekoski foram dos poucos que chegaram a cavalo. Uma hora e meia para vencer os 23 quilômetros desde a cruz do Pilarzinho. ''A gente veio meio maneirado, conversando. Se for para arrojar a botina, aguenta bem e dá para fazer em uma hora'', conta José, de lenço, chapéu e bombacha. Para eles nada de bingo. Estão ali para encontrar os amigos e jogar um truquinho.
Deise Pampuch, de 17 anos, está por trás da Roda da Fortuna pela segunda vez. Terminou o ensino médio, voltou-se para o trabalho na agricultura com o pai e sonha em dar aulas de matemática e física. Enquanto isso segue suas atividades na igreja. ''Quando fiz Crisma, já me cataram para fazer a catequese'', explica. Atualmente é a coordenadora de canto, recolhe o dízimo e também faz a liturgia - a capela, uma das 24 do município, não tem sacerdote próprio. Deise acredita que são poucos os jovens que, como ela, se interessam pela igreja. ''Adoro estar no meio do povo, no fervo'', justifica.
Na festa, é a responsável por organizar a roda com os 100 números que dão prêmios tão variados quanto bolo, frango assado e 25 cestas de produtos diversos montadas e doadas por famílias da comunidade. As senhas, vendidas a R$ 1, correm pelas mãos de três vendedores e são divididas em 36 rodadas - ou mais no caso de prêmios chegarem de última hora ou se sobrar churrasco.
Igreja
O Conselho da Pastoral, que organiza a festa, é formado por oito pessoas. Divanir Ceronato, 50, mora na região há 33 anos. Há dez, ajuda a coordenar os festejos. ''Antes participava muito pouca gente e o assado era feito na vara de bambu.'' Construíram o salão paroquial e potencializaram a arrecadação - o que chegou a R$ 9 mil na festa de setembro. Quanto à de domingo, mesmo sendo de proporções menores, Divanir já comemora o resultado. ''Deu para vender tudo. Não sobrou nada na cozinha. Vai dar mais de R$ 6 mil.'' Só do bingo, cinco cartelas a R$ 10, foram R$ 3,5 mil. O dízimo, porém, bate a porta. ''Estamos devendo R$ 2 mil para o frei; os 10% das últimas duas festas, um dinheiro que vai para a matriz.''
Nilson Guimarães, 27, e Denilson Perussi, 36, são os locutores do bingo. ''É um bico de fim de semana'', conta Nilson, na atividade há dez anos. Ele trabalha na pecuária; Denilson é funcionário público. ''Pagam R$ 50 para cada um. Quase todo domingo tem bingo. São 24 capelas em Almirante.'' Ao microfone, dão início a primeira rodada logo depois das 13h30. Na rodada 55, a dona de casa Lúcia de Fátima Pilar dos Santos, 35, ganhou um vale de duas pontas de costela no Açougue Dall'Santi. ''Você sabe onde pega?'' Este repórter não tinha a resposta. ''Vou revender.'' Destino parecido teve o leitão que Marilete Brejeski Bueno ganhou em uma festa anterior. ''Eu dei uma engordada e vendi por R$ 150.''
O grande vencedor do dia só seria anunciado às 18h30. Com 22 cartelas no jogo, a diarista Maria Alves de Souza, 51, levou os R$ 500 para casa. Diz que tem dia para ganhar e perder. Fez de carro os 18 quilômetros desde sua residência em Itaperuçu, município vizinho, acompanhada do esposo, filho e vizinha. Desta vez, não gerou polêmicas. ''Mas no ano em que bati 19 vezes a mulherada queria me bater.'' Veterana dos bingos da região - são dez anos de frequência ininterrupta - já ganhou Boi, TV 29 polegadas, colchão de mola e uma vaca acompanhada de bezerro com 15 dias.
Maria diz que também faz doação de prêmios. ''Sempre que possível, dou de bom coração as prendas.'' Para outros bingos já cedeu liquidificador, batedeira e jogo de panelas. Participou em um deles e acabou levando a batedeira de novo para casa.


