Os R$ 320 emprestados da avó ajudaram Welsten vir a Curitiba. Sem eles, a viagem ficaria, talvez, para o ano que vem. No ano que vem, Gabriel não sabe se volta à cidade - o motivo é financeiro. Já Germano também não sabe seu destino daqui um ano. Talvez esteja estudando na Alemanha, como deseja.
São três histórias diferentes que, por um único motivo, cruzaram-se em Curitiba em janeiro deste ano: a música. Os jovens fazem parte do grande número de pessoas atraídas pela programação da 27 Oficina de Música de Curitiba, que será realizada até o dia 28 de janeiro. Este ano, além de 101 cursos, a programação oficial conta com 63 apresentações e a previsão de mais de 20 mil pessoas circulando pela Oficina.
A vasta programação traz para Curitiba muita gente de outras cidades e estados do Brasil, como é o caso de Welsten, Gabriel e Germano. Nenhum deles é do Paraná. São de localidades diferentes, com experiências distintas e futuros imprevisíveis. Este ano decidiram frequentar as aulas da Oficina de Música, que estão sendo realizadas no Colégio Estadual do Paraná. Só aqui descobriram a importância da experiência.
Entre os quase 1.500 alunos inscritos, não há levantamento por parte da organização de quantos são de fora do Paraná. Nas salas dos cursos (divididos em música erudita, música antiga, MPB, blues e música eletrônica) há sempre quem tenha vindo de outro Estado. Ou país. São histórias que se cruzam em Curitiba.
Welsten Wesklei da Cunha Leopoldino é de Barra Mansa, a 100 quilômetros do Rio de Janeiro. Tem 17 anos, de sorriso fácil e sotaque carioca. A família frequenta a igreja evangélica Assembléia de Deus. Sob as asas do templo, teve a primeira experiência com o instrumento que o trouxe à Oficina de Música de Curitiba, o saxofone. Depois da primeira orientação musical na igreja, conseguiu vaga em um projeto de música de sua cidade. Ainda adolescente - reconhece o fato por entre um sorriso encabulado -, diz que não teria mais nada para aprender no curso da cidade do interior. Só no Rio de Janeiro poderia seguir os estudos.
Foi. Em novembro de 2007, começou a receber aulas, de graça, de um professor de saxofone da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que lhe reconheceu o talento. Se não fosse isso, Welsten não teria condições de pagar aulas em um conservatório de música.
Desde o ano passado, o garoto trabalha como professor de sax na escola onde começou a estudar. O salário é de R$ 280. Economizou muito para fazer a oficina de sax em Curitiba. Mesmo com as economias, teve de pegar emprestados R$ 320 da avó - a dívida deve ser paga no mês que vem. Mesmo repassando tudo o que ganha para avó, ainda ficaria devendo.
Ficaria. Não sem um sorriso frouxo, Welsten conta que esta semana fora promovido no projeto onde ministra aulas. Depois de uma avaliação, subiu de cargo como professor. A partir do mês que vem, passa a ganhar R$ 1.200. ''Agora, com certeza, volto para Curitiba no ano que vem'', garante. A comemoração é dobrada, já que ele está praticamente aprovado para o curso de música da UFRJ. Faltam ainda os resultados das provas de língua portuguesa e matemática. Na específica, de saxofone, foi aprovado em primeiro lugar.
As vitórias e conquistas, Welsten comemora em Curitiba, onde está hospedado na casa de uma tia que nunca havia conhecido. Se não fosse esse teto, o curso ficaria para 2010. Não foi assim. Este ano conheceu Curitiba - e adorou. Considerou a cidade limpa e organizada, mas de trânsito caótico. ''Fiz muitas amizades aqui. E tem bastante mulher bonita'', diz, como não poderia deixar de dizer.
Piano
Se para Welsten a Oficina de Música de Curitiba é a representação de muitas vitórias (principalmente social), para Germano Marques Morey, de 19 anos, também é, mas de um forma diferente. O paraense de Belém quer estudar piano na Alemanha, terra de seu mestre, Beethoven. Os pais ainda se sentem inseguros em mandá-lo para fora do País, então, desde o ano passado, ele roda o Brasil participando de cursos e oficinas buscando aprimoramento no instrumento. A Oficina de Música de Curitiba representa para ele o prenúncio da conquista da liberdade.
Germano, que pegou o avião em Belém às 6 horas da manhã e chegou em Curitiba às 15, reconhece que sem sua condição financeira não poderia participar da Oficina. Sabe também de seu talento e onde quer chegar. Deixa transparecer isso na fala, nas palavras bem flexionadas e pronunciadas corretamente - mas sem esconder o sotaque e a admiração por Belém, amada e criticada ao mesmo tempo.
Este ano, Germano se forma em piano no Conservatório de Música Carlos Gomes e começa o terceiro ano da graduação na Universidade Estadual do Pará (UEPA). Seu início no instrumento, há 11 anos, foi muito diferente do de Welsten. ''Minha mãe é violinista. Cresci vendo mamãe tocar violino'', conta. A casa musical lhe deu substrato para uma fina educação, que permite a Germano analisar a importância das oficinas para estudantes de música. ''Estar aqui é importante pois são experiências e vivências diferentes. Só de ver outros alunos tocarem, já influencia. Esse intercâmbio acaba se tornando um aprendizado constante'', diz, como não poderia deixar de dizer.
Mesmo tão diferentes, os dois são exemplos de paixão pela música. São histórias que cruzam com a de Curitiba e sua Oficina de Música. Histórias importantes, cada qual a seu modo. Acontecem mais uma vez e voltarão a acontecer com outros jovens. Se elas voltarão a se cruzar? Isso não importa...

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