Legados de José Eduardo


Walmor Macarini

Convivi vinte anos com José Eduardo de Andrade Vieira, desde que ele adquiriu uma cota-parte da Folha de Londrina e depois, quando tornou-se majoritário. E, ao contrário do que alguns imaginavam, ele era um homem autêntico, de afirmações convictas, muito respeitador e educado. Nos últimos dez anos dessa convivência eu fui o editor de opinião do Jornal, e muito frequentemente o consultava. Sua carreira de banqueiro, político e pecuarista o converteu num homem sempre bem informado e atualizado, e seus anos de incursão pelo jornalismo empresarial consolidaram sua vasta estrutura de conhecimentos, sobretudo acerca das questões nacionais.
Senador e depois ministro, nos governos de Itamar Franco (quando foi lançado o Plano Real, em 1994) e de Fernando Henrique Cardoso, passou pela vida pública sem desmandos e desonestidades, e quem conhece o meio político sabe que é estreito o desfiladeiro a trilhar, esbarrando com interesses muitas vezes escusos e com as tentações desse cenário de poder. Ao contrário, ele foi uma vítima, quando o assaltaram e lhe tomaram o Banco Bamerindus. Apesar disso, nunca aqui dentro do Jornal alguém ouviu dele uma eventual recomendação para revidar contra seus algozes. Razão e autoridade ele tinha de sobra para isso. Passei a admirar este seu comportamento ético, e tirei desse fato valiosa lição.
José Eduardo foi um homem que lidou com grandes negócios, ascendeu a pináculos do poder - econômico, político e social - e uma vez ele me surpreendeu com temas que tratavam do transcendente, revelando um certo aspecto místico de seus entendimentos. Talvez porque houvesse encontrado em mim um ouvinte, naquele momento adequado. Um detalhe a demonstrar que nem sempre se conhece inteiramente uma pessoa apenas pela aparência ou por um juízo precipitado que dela se faça. Mas não só isso, porque conheci dele também muitos outros atributos, principalmente o da generosidade. Pelos caminhos que galgou, foi inevitável não gerar também adversários, dos quais não se livraram nem os mais virtuosos dos homens. Zé Eduardo, como o denominavam, era homem de poucas palavras, mas cumpridor e bom ouvinte. Sempre que alguém se aproximava para uma conversa ou consulta, ele cessava o que estava fazendo e dava atenção ao interlocutor, olhando-o de frente. Este era um detalhe de sua educação.
Ele nunca foi arrogante, porque tinha bagagem suficiente e não precisava disso. Quando ligava para uma autoridade era prontamente atendido - isto eu testemunhei - e com frequência era consultado por gente de poder, até porque este era seu universo de relações. Mesmo nas reuniões de pauta do Jornal - que é quando se discute as prioridades do dia e se traça um esboço da edição - lá estava em certas ocasiões José Eduardo, sentado às vezes no balcão, porque o espaço era pequeno. Percebia-se que ele queria inteirar-se sobre coisas relacionadas com o processo. Ele defendia suas ideias com firmeza e sabia ouvir. A porta de sua sala, aqui na parte superior onde se encontra a Redação, estava sempre aberta e não era preciso anunciar-se para entrar. Só o fazíamos por educação.
Era um combatente do modelo de pedágio implantado no Paraná - ele conhecia o sistema universal, bem diferente do nosso, até porque havia morado nos Estados Unidos - e fazia críticas aos políticos carreiristas, "a maior parte deles sem espírito público e apenas interessados no bom emprego" - ele declarava. Aí sua visão política, ele que estribara sua campanha sob um chapéu de panamá, e que o fez sempre lembrado como "o homem do chapéu". Eleger um dono de banco pelo voto popular era uma façanha, ademais quando se sabe que as esquerdas retrógradas são contrárias à classe empresarial, ao agronegócio e a quem produz riquezas. Certa vez, referindo-se às redes de lojas, ele disse que elas eram bancos... Compreendi que era pelo sistema de operações financeiras do crediário.
José Eduardo foi um político corajoso e combativo, e escrevia bem, sem necessidade de revisão de conteúdo e forma (os grandes jornais do País publicaram vários artigos dele) e deixou publicado o livro "O Pacto da Seriedade", de 415 páginas, uma síntese de seus pensamentos enquanto político e empresário e um raio-x da realidade brasileira. Embora escrito no início da década de 1990, é ainda hoje uma obra atual. Ele tinha uma visão cosmopolita, e como ministro do Comércio, da Indústria e do Turismo publicou que "o verão é um dos mais disputados produtos". E que o Brasil o dispunha abundantemente.


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