Laboratório vegetal
Quando se trata de ambiente urbano, uma das grandes reclamações de especialistas em arborização é a adoção, pelos gestores públicos, de espécies exóticas. Trata-se de uma história que remonta à colonização do País. Assim como os portugueses e outros povos europeus que aportaram por aqui trouxeram sua própria cultura de origem, isso também aconteceu com a arborização. Dessa forma, as espécies plantadas em nossas cidades também vieram de ambientes externos aos ecossistemas brasileiros. Mais recentemente, especialistas e pesquisadores passaram a descrever diversos problemas relacionados às espécies exóticas, como ausência de alimentos durante todo o ano para pássaros e outros animais, invasão do habitat das espécies nativas e redução da biodiversidade.
Foi pensando numa solução para estes problemas que, há seis anos, um grupo de professores e biólogos da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e técnicos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema) começaram a realizar um ensaio de arborização urbana apenas com espécies nativas. E mais: nativas não apenas do Brasil, mas da Mata Atlântica presente no Norte do Paraná. O laboratório foi implantado no Conjunto Sebastião Melo Cézar, zona norte de Londrina. No total, foram plantadas 143 mudas, a maior parte cultivada a partir de sementes coletadas na Mata dos Godoy. Em comum, foram escolhidas espécies de médio porte, que não apresentam grandes frutos nem queda acentuada de folhas.
A reportagem da Folha acompanhou o professor José Marcelo Torrezan e a bióloga Alba Lúcia Cavalheiro, ambos do Laboratório de Biodiversidade e Restauração de Ecossistemas (Labre) da UEL, numa visita de campo para verificar o andamento da experiência.
"O objetivo desse projeto é verificar como essas espécies se comportam no ambiente urbano. Na floresta, o comportamento é um - tem mais sombra e o solo é menos compactado, por exemplo. Queremos saber como elas se adaptam aqui na cidade", conta Torrezan.
Logo ao chegar ao "laboratório", os biólogos se depararam com algumas espécies extremamente bem adaptadas ao ambiente urbano. "Olha que joia, essa está super saudável", aponta Alba Lúcia, enquanto examina uma espécie de Trichilia. Outros exemplares da mesma espécie também se mostraram bastante aptas à utilização no ambiente urbano.
Por outro lado, as mudas de Guarea tiveram problemas, como crescimento de galhos laterais e criação de obstáculos para o tráfego de pedestres. "Talvez tenha faltado uma condução correta", arrisca a bióloga. Também foi constatado que muitas mudas foram retiradas pelos próprios moradores para plantio de outras espécies.
A dona de casa, Vilma Lúcia Rodrigues, não foi uma delas. A Trichilia localizada em frente à sua casa vem recendo atenção e cuidados desde o começo. De acordo com ela, os moradores foram informados das características de cada espécie na época do plantio e orientações para ajudar no seu crescimento. "Eu gostei muito. Quando plantaram, era fina como meu dedo e olha ela agora, que gracinha. Mas a gente sempre ajudou: quando não chovia, a gente regava. Agora, estamos esperando chegar as flores."





