JUVENTUDE SEM LIMITES - Jovens bem-educados, mas inconseqüentes
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sábado, 05 de março de 2005
Chiara Papali<br>Reportagem Local 
Uma jovem agride outra batendo com um copo contra seu rosto. A vítima tem a face cortada, o olho machucado e poderá não trabalhar mais como modelo profissional. Enquanto isso luta para recuperar a visão. O motivo da agressão, que ocorreu em uma casa noturna bem frequentada, seria ciúmes do namorado, que é ex da vítima.
A história, que mais parece tema de novela mexicana, aconteceu de verdade em Londrina. O palco para o episódio foi a casa noturna Empório Guimarães, há cerca de três semanas, na madrugada do dia 13 de fevereiro, envolvendo jovens de famílias conhecidas da cidade (leia texto nesta página). Mas, o que poderia ser considerado fofoca ou assunto apenas das páginas policiais, pode levar a reflexões: afinal, por que jovens supostamente bem-educados e de família cometem esse tipo de crime (a agressora responde à inquérito policial por lesão corporal grave)? Qual a razão para tanta agressividade e atitudes inconseqüentes entre adolescentes e jovens adultos?
A impulsividade, segundo a psicóloga Cláudia Garcia Heer, de Londrina, apesar de ser uma característica no comportamento de jovens, não justifica transgressões. Para o presidente da Associação Brasileira de Adolescência (Asbra) e da Confederação Íbero-Americana de Adolescência e Juventude, o pediatra Walter Marcondes Filho, a família em geral tem deixado de passar valores e de dar limites aos filhos, quando coloca o ter como mais importante que o ser.
Atitudes agressivas, explica Cláudia, estão intimamente ligadas à tolerância e à dificuldade de lidar com a frustração. Acontece assim: o jovem não aprendeu, quando criança, a lidar com situações em que as coisas não acontecem como ele quer. Na infância, nunca foi contrariado, sempre teve tudo o que quis, e teve a vida muito facilitada pelos pais, sem ter que batalhar por conquistas. Tudo isso gera uma dificuldade grande de ter paciência. Esperar é aguentar-se, enfatiza a psicóloga. Aí, quando o jovem enfrenta uma situação que não lhe é favorável, reage agressivamente.
A família perdeu a noção de limites com os filhos. Educação, limites, noções de moral e respeito ao próximo, além de carinho, amor e afeto, devem ser ensinados a partir do nascimento, alerta Marcondes. Ele critica o comportamento de pais que dão tudo, a toda hora, e que, ao invés de estarem presentes, delegam a tarefa de educar a babás e professores. O médico defende a tese de que os pais não devem satisfazer todos os desejos do filho, mesmo se há condições financeiras para isso. Quando a gente era criança e queria uma bicicleta ou uma roupa nova, ganhava no Natal ou no aniversário. Postergava-se o prazer. Essa é a geração delivery, que recebe tudo pronto.
Modelos violentos na sociedade, enfatizam os especialistas, também contribuem para reações exarcebadas. As guerras que vemos noticiadas todos os dias são um modelo da falta de entendimento pacífico, alerta Cláudia. Fatores como a exploração da sensualidade e do consumismo pela mídia, adultizando a criança, resultam em uma insatisfação grande para o jovem, que nada preenche, completa Marcondes.
A falta do uso da palavra, do diálogo, é outro (mau) modelo de comportamento atual, ressalta a psicóloga. Antes de partir para um ato violento, espera-se primeiro um diálogo, uma negociação, mas hoje temos um exercício insuficiente do uso da palavra, explica. Outro fator que não justifica, mas pode explicar a agressividade entre jovens é uso de substâncias entorpecentes. A bebida e a cocaína liberam os medos, a timidez e dão a sensação de onipotência, explica Marcondes.
Ele aponta também a falta de impunidade no país e a permissividade das pessoas em relação às leis, como maus exemplos. Quando o pai, por exemplo, deixa o filho adolescente dirigir, mesmo sem carteira de habilitação, dá uma mensagem clara, de que ele está acima da lei. As primeiras leis que tem que ser obedecidas são as leis de casa, reforça Cláudia.
E a junção de todos esses fatores falta de limites ao longo da infância, mudança de hormônios na adolescência, modelos de violência e uso de álcool e drogas resulta em uma mistura explosiva, como a vista em Londrina. A arrogância típica da adolescência tem que ser confrontada com o modelo dos adultos: você pensa que pode tudo, mas não pode. Quanto mais tarde o processo educativo, mais difícil e doloroso, mas sempre é possível, afirma a psicóloga.


