Juventude antenada
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Se por um lado muito se fala em "geração alienada" ou mesmo "geração nem nem nem" - que não estuda, não trabalha e não procura emprego -, há de se lembrar que também existe uma juventude engajada, interessada em transformar o meio em que vive e até a cidade como um todo.
E mesmo não tendo a visibilidade merecida, jovens e adolescentes estão se mobilizando, contrariando o que as ciências sociais chamam de "novo boom individualista", onde cada um está interessado "no próprio umbigo".
Aos 15 anos, Denise dos Santos Trindade é um exemplo dessa juventude antenada nas questões sociais do próprio bairro. Ela mora no Jardim União da Vitória 4, na zona sul, e por iniciativa própria decidiu entrar para a Rede Pontes.
"Estou aprendendo como assegurar meus direitos para repassar às pessoas do meu bairro. A gente tenta melhorar a nossa comunidade há muito tempo. A infraestrutura está muito ruim, as ruas estão horríveis, todos se esquecem de lá. Mas a própria comunidade tem uma parcela de culpa. Tem muitas pessoas que não se interessam e não têm informação. Não sabem que muitas vezes são eles que têm que correr atrás dos direitos", diz.
A Rede Pontes é resultado de um projeto de formação e articulação de adolescentes para participação e controle social, da Central de Notícias dos Direitos da Infância e Adolescência (Ciranda). É constituída por adolescentes de cinco regionais paranaenses, inclusive Londrina, e direcionada para o mesmo público.
"Aprendemos formas de interagir com o governo de nossa cidade e como ser um cidadão ativo", conta Otávio dos Santos Silva, de 17 anos. A articuladora titular da Rede em Londrina, Maria Eduarda Garcia, de 14, explica que o objetivo é informar outros adolescentes sobre seus direitos por meio de oficinas, eventos e atividades.
"Queremos ocupar os espaços públicos, mas não apenas sentando e discutindo. Queremos adolescentes envolvidos também em atividades culturais, de esporte e lazer. Pensamos em nos manter ativos em escolas e entidades sociais para discutir essas questões, pois estamos nos capacitando, estudando o ECA e sendo orientados por conselheiros", ressalta.
O plano é que em 2014 todas essas ideias sejam colocadas em prática. O grupo já começou a divulgar o trabalho através de redes sociais. "Luto bastante pelos grêmios estudantis, pois acho que é um meio fundamental de levar a voz da galera para a direção e criar meios de se comunicar também com toda a comunidade em volta", declara Karen Marcelino, de 16, articuladora.
Mão na massa
Outro exemplo dessa juventude participativa vem de uma parceria entre a Aiesec de Londrina, uma organização de jovens universitários presentes em 113 países e o Instituto Elos Brasil, ONG fundada em 2000 por cinco jovens arquitetos de Santos (SP).
Uma das ações é o "Movimento Oásis" que tem o objetivo de transformar uma realidade. Para receber o projeto em Londrina, quatro jovens se uniram para fazer um vídeo que justificasse a vinda do Oásis.
"Nós imergimos dentro de uma realidade carente e juntos começamos a sonhar algo que seja possível de ser construído. Em primeiro lugar, nós avaliamos o senso de comunidade, por exemplo, se todos se conhecem e se existe essa coletividade. Em seguida conversamos com os moradores com o intuito de conhecer suas histórias e descobrirmos qual é o sonho deles que possa ser alcançado. Montamos o projeto em uma maquete e passamos a ir em busca de materiais", explica o oasiano Fernando Carvalho dos Santos, de 20.
Em agosto, com a participação de mais de 30 voluntários, o grupo colocou a mão na massa no Jardim União da Vitória, zona sul. Foi construída uma quadra de vôlei e futebol de areia e um parquinho ao lado de algumas mesinhas.
A ação não é vinculada ao poder público. Todas as ferramentas são doadas pelos moradores e comerciantes do bairro. Em um fim de semana, os voluntários se entregam ao projeto. É pura solidariedade, sem custos e cobranças.
Participação
Renato Eliseu Costa, de 27, formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP, mestre em Ciências Sociais para América Latina e conselheiro do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente (Conanda) acredita que essa juventude em especial "tem uma característica que é uma curiosidade nata. É a geração google, onde se descobre tudo na internet. A gente precisa conseguir direcionar essa ansiedade e curiosidade para algumas coisas que despertem o elemento cidadão, dentro de um senso comum".
Para ele, esse despertar é o passo mais importante. No âmbito do bairro, a promoção de rodas de conversa e o entendimento dos assuntos ajudam a discutir os problemas da comunidade. "Por vezes, o trabalho é mesmo de formiguinha. Os jovens vão tentando despertar todo mundo sobre a importância de uma associação de bairro, o grêmio estudantil e vai aparecer um ou dois interessados, mas em algum momento esse esforço faz a diferença, pois os jovens já estão preparados. Não é algo que se vivenciou só no momento de efervescência de um problema", acrescenta.
Já na escola, Costa diz que o espaço do grêmio é essencial, pois é a voz dos alunos com força institucional. "É dos grêmios que sai uma série de movimentos da juventude, como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e que hoje têm um impacto político muito grande. Ele passa a ser um centro de referência não só para os alunos, mas para todo o bairro", completa.




