A vida em torno do comércio do pinhão não é fácil. A araucária está cada vez mais escassa, não há políticas públicas para tirar melhor proveito da espécie e nem grandes produtores organizados para "exportar" pinhão para o resto do País. O produto é barato e já não dá grandes lucros. Outra barreira enfrentada pelos vendedores da beira da rodovia são as constantes tentativas da concessionárias que administram as saídas de Curitiba de proibir o comércio nas margens das vias. Quem para o carro para comprar, às vezes não imagina que existe essa batalha. Mas ela está nos tribunais.
Por muito tempo, entre 2005 até há duas semanas, o pinhão sumiu das margens da BR-277. O desaparecimento, que pode ter causado estranhamento em muito consumidor, aconteceu por uma decisão judicial, que proibiu a comercialização. A ação para impedir a venda foi movida pela Concessionária Ecovia, que administra o trecho entre Curitiba e o Litoral do Estado. A determinação foi revogada na semana passada na comarca de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), para alívio dos vendedores. "Se ficar só na feira ou no mercado, o consumo de pinhão vai morrer. Quem mais compra são as pessoas de outros Estados que estão viajando", afirma o vendedor Joel Maia.
Joel e outros vendedores resolveram se unir contra a decisão. Estão sendo representados pela advogada Mercedes Ubas. Ela explica que uma liminar da Ecovia proibiu a venda na rodovia. A advogada rebate, porém, que nenhum órgão pode proibir o comércio de produtos típicos. Ela alega que a determinação acabou por prejudicar muita gente que vive do pinhão. Deu certo. Com base em um julgamento da 2ª Vara Cível de São José dos Pinhais, a venda foi liberada há duas semanas. "Agora não existe nenhum tipo de proibição", comemora a advogada.
As concessionárias, no entanto, estão na Justiça para impedir a comercialização. A Ecovia informou que "ainda está buscando meios legais para coibir a venda de qualquer produto no acostamento da BR-277", conforme nota da assessoria de comunicação da empresa. A proibição tem um motivo: segurança.
As empresas alegam que o comércio nas margens das rodovias é perigoso, podendo causar acidentes. Segundo a Ecovia, "o comércio de qualquer produto nos acostamentos ou na faixa de domínio destas estradas, uma atividade de alto risco, para quem vende o produto, para os usuários que estacionam os veículos no acostamento e realizam a compra e também para os demais usuários em trânsito pela rodovia". A concessionária argumenta ainda que os acostamentos devem ser utilizados para paradas emergenciais; por isso, devem ser mantidos sem obstrução.
Já a Autopista Litoral Sul, concessionária que administra o trecho entre Curitiba e Palhoça (SC), formado pelo Contorno Leste e pelas BRs 376 e 101, afirma, por meio de sua assessoria de comunicação, que, "de acordo com o contrato de concessão destas rodovias, fica proibido o comércio dentro das faixas de domínio destas vias".
Segundo a concessionária, "serão permitidos somente estabelecimentos comerciais que tenham autorização para exercer a atividade e obedeçam a normas de segurança, tais como sinalização adequada e acessos com espaço suficiente para aceleração e desaceleração". Ou seja, excluí os vendedores de pinhão. Ainda assim, eles continuam a vender, quilômetro por quilômetro, um atrás do outro.
A assessoria da Autopista Litoral Sul informou que a proibição do comércio está sendo definida judicialmente. A concessionária aguarda a decisão. Uma das sugestões apresentadas pela empresa é de que os vendedores de pinhão comercializem o produto em locais já estabelecidos, como postos de gasolina.
Joel enxerga a BR-376 como uma espécie de "caminho do vinho" do Paraná, só que de pinhão. Para ele, se o comércio na rodovias for proibido, acaba com o sustento de mais de 300 pessoas, entre vendedores e aqueles que realizam a colheita. Ele é um exemplo. Grande parte da família de Joel encontra parte do sustento nesse ciclo. Mesmo assim, ele não teme uma proibição definitiva. Na fala amarga, só transparece resignação. "Sei que uma hora vão proibir de vez. Sei que já seguramos o que deu. Uma hora não vamos conseguir mais", diz, talvez já cansado de guerra.


Uma exploração antiga
"Hoje, dar um tiro na cabeça de uma pessoa não tem tantas consequências como cortar uma araucária. Mesmo assim, o pessoal ainda dá um jeitinho de cortar. Daqui uns 100 anos, não vai ter mais...". A lamentação, com ares apocalípticos, proféticos, é de Joel Gonçalves Maia. Mesmo com a legislação que proíbe o corte da árvore-símbolo do Estado, não há estímulo para novas plantações. Há mais de 20 anos, o número de araucárias nativas não se transforma (não cai; no entanto não cresce). O número é alarmante: o Paraná detém menos 3% da mata intacta de araucárias. O restante foi devastado. Se pensarmos que metade do Estado já foi coberto pela espécie, podemos afirmar que ela está em vias de extinção.
A ameaça da espécie foi causada pela qualidade da madeira da araucária. A forte derrubada aconteceu durante o período da Segunda Guerra Mundial, quando os oceanos ficaram fechados e a Ásia, principal exportadora de madeira para a Europa, deixou de fornecer o material. A saída foi buscar madeira na América do Sul. Esse período de forte extração da madeira da araucária durou até o final dos anos 1960. "Formavam-se filas de caminhões carregados de tora de araucária para descer a estrada da Graciosa até o porto de Paranaguá", recorda o professor Flávio Zanette, do Setor de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que estuda a espécie há 22 anos.
Para o professor Zanette, a exploração do pinhão no Paraná (e toda a região Sul) não é economicamente viável - no mesmo sentido com que outras regiões fazem com suas espécies típicas (como o cacau e o caju no Nordeste, ou o pequi no Centro-Oeste). A ideia do estudo de Zanette é tornar o Paraná um grande produtor de pinhão. Ele diz que há uma necessidade de políticas públicas que estimulem a criação de "pomares", que torne maior a produção, permitindo a "exportação" para outros estados do País.
Na opinião de Zanette, a comercialização de pinhão, como é feita hoje, é absolutamente extrativista e obsoleta. "Isso leva a coleta de pinhas que não estão maduras, depreciando a qualidade da semente", diz. O resultado é a falta de padrão e qualidade nos pinhões. A culpa, afirma Zanette, não é do pequeno produtor, que colhe nas matas para vender nas rodovias. "Falta uma política de orientação para estes produtores. O poder público é atrasado em relação a isso", diz.
Os estudos da universidade visam desenvolver um crescimento mais rápido da araucária, produzindo pinhão em menos tempo. No meio da floresta, uma árvore demora 20 anos para produzir. Os estudiosos desenvolveram um processo de enxerto que já reduziu esse tempo para 12 anos. "Queremos reduzir esse tempo para seis ou oito anos", diz Zanette. O professor explica que com esse tipo de produção, o pinhão produzido no Estado teria mais qualidade. Além disso, ele lembra que o tempo de vida de uma araucária dura, em média, 200 anos. "Qual outra árvore produz alimento por 200 anos? Nenhuma. Será que não dá mais lucro que a exploração da madeira?", indaga, já sendo a pergunta a resposta afirmativa.
Por fim, Zanette acredita que o Paraná e os outros estados do Sul deixaram de lucrar (e preservar) muito com a exploração incorreta da araucária. Além disso, somente plantações controladas poderiam salvar a espécie da extinção. "Estimular a produção do pinhão é preservar a araucária", encerra, anunciando antes que a frase seria de impacto. Tomara. (T.A.)

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