São Paulo - Há seis anos, Valentin, 20 anos, criado em família católica, é budista. É da mesma época os primeiros passos de Fany, 27, no Xamanismo e nos rituais do Santo Daime. Seu namorado, Gabriel, 20, também segue as duas religiões, além de ser adepto do rastafarianismo - a mesma religião de Bob Marley. Wellington, 21, passou a frequentar a igreja evangélica Bola de Neve, após ser convencido por um vizinho. Eles podem divergir quanto a crença, mas estão unidos por viverem a fé em seus cotidianos.
A trajetória dos quatro jovens contraria o senso comum que atribui a essa fase da vida uma postura individualista e pouco interessada em qualquer forma de religiosidade. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e Instituto Polis, realizada em sete regiões metropolitanas (Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo), já identificava isso em 2005.
O comportamento de mais de oito mil jovens diante de assuntos como religião e política foi analisado para se traçar um perfil dessa população. Nesse universo, a participação em grupos é vivida por 28,1%, a maior parte pertencentes às classes A e B. A religião é o principal motivo que os une (42,5%), seguida por atividades esportivas (32,5%) e artísticas (26,9%).
A forma como os jovens vivem a religiosidade, no entanto, chama a atenção. ''Essa é uma geração que experimenta mais, entra e sai das religiões com facilidade'', diz a antropóloga e pesquisadora do Ibase, Regina Novaes. ''Muitas vezes, a procura leva a uma mistura de crenças pois eles se sentem mais livres para procurar um lugar em que se sintam bem.''
A vivência familiar é uma das explicações para a flexibilidade da fé. ''Essa geração vem de famílias plurireligiosas, o que é uma novidade'', explica Regina. Valentim Conde Gimenes Fernandes, 20, tinha tudo para ser católico. A avó o levou para igreja, a mãe frequentava grupos de oração. Porém, aos 14 anos, o jovem começou a se interessar pelo Budismo.
O interesse cresceu a ponto de se tornar voluntário no Templo Zu Lai, em Cotia, na grande São Paulo. Seis anos após se converter, a família de Valentin também mudou. Aceita a religião do filho e seu objetivo: ingressar na Universidade Livre Budista e depois continuar seus estudos em Taiwan para se tornar monge. ''O budismo foi fundamental para eu me entender melhor e para que eu não fosse mais uma pessoa mentindo para si mesmo'', diz ele.
Crentes
Uma pesquisa feita neste ano por um grupo conduzido pelo teólogo Jorge Cláudio Ribeiro, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com cerca de 1.500 universitários paulistas de 17 a 25 anos reflete a tendência dos jovens buscarem sua própria fé. O estudo mostrou que 20% dos entrevistados se declaram crentes sem religião. Ou seja, estavam ligados a práticas religiosas diversas, sem serem filiados a nenhuma delas. ''É comum ouvir dizer que a juventude perdeu as crenças, mergulhou no niilismo, no consumismo e no individualismo e abandonou as práticas religiosas. No entanto, a pesquisa descobriu que, pelo contrário, o jovem cultiva intensa religiosidade, que se integra em sua vida'', afirma o teólogo.
Os dados encontrados pelo professor vão ao encontro dos últimos dados disponíveis do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelo último censo, há três grandes mudanças em curso na religiosidade do brasileiro, e das quais os jovens até 24 anos fazem parte: queda no número de católicos, crescimento de evangélicos e aumento de pessoas que não se identificam com nenhuma religião tradicional.
Pouco tradicional é uma definição para as crenças do casal de namorados Fany Carolina de Castro Matriccioni, 27 anos, e o namorado Gabriel Santana, de 21. Fany além de seguir o Xamanismo - religião de origem siberiana que une os conhecimentos ancestrais de povos indígenas e representações de seres míticos e animais - também frequenta sessões do Santo Daime, seita que ficou conhecida pelo uso da chá da ayahuasca, planta nativa da região amazônica. Gabriel compartilha das duas crenças, mas também é seguidor do Rastafari, crença fortemente influenciada pelo judaísmo e cristianismo.

mockup