Algumas espinhas no rosto, o boné virado para trás e um sorriso tímido não deixam dúvidas: os brasileiros estão vindo para a Europa ainda na adolescência. Há cerca de duas semanas, no saguão da Embaixada brasileira, a reportagem conheceu o paranaense Élder (o sobrenome foi omitido para preservar sua identidade), um garoto de apenas 20 anos, de Marumbi, recém-chegado na França havia dois meses.
Como muitos brasileiros, Élder tinha intenção de ir para a Inglaterra, mas acabou ficando só na vontade. Na verdade, nem chegou a avistar o território inglês: em Paris, na estação ferroviária Gare du Nord, de onde parte o famoso trem Eurostar rumo a Londres, Élder não convenceu os policiais que estava viajando a turismo. O paranaense foi deportado dali mesmo junto com mais dois rapazes de Marumbi e outros dois de Jandaia do Sul. Mas eles não se deram por vencidos e decidiram ficar na França, apesar do total desconhecimento da língua e da falta de visto.
Dividindo o mesmo quarto com os demais companheiros, Élder fincou pé e disse que não sai da França de jeito nenhum. Cheio de esperança, o brasileiro, que estava na Embaixada para se informar sobre o direito à nacionalidade espanhola, origem de sua família, assegurou que já tinha arrumado uma vaga como servente de pedreiro e que começaria a trabalhar por aqueles dias.
Menino também, o mineiro Douglas dos Reis Vieira, deixou Pouso Alegre no dia 1º de novembro de 2003 disposto a enfrentar o mundo. Na época, com apenas 19 anos, ele decidiu ir para Portugal atrás de emprego. Na cidade do Porto, o rapaz trabalhou em restaurantes por exatamente um ano, juntando cerca de 2 mil euros. Foi então que em novembro de 2004, depois de ''trabalhar como um escravo em Portugal, de segunda a segunda, fazendo até 14 horas por dia, ganhando uma média de 400 euros por mês, deu na cabeça de vir para a França''. Ele veio mesmo, aproveitando a carona oferecida (mas paga e a um preço bem alto) por um português que também vinha para o país.
Quando a reportagem encontrou Douglas, na região metropolitana de Paris, precisamente na cidade de Ris Orangis, ele já tinha se enturmado com alguns portugueses, que lhe arrumaram pequenos biscates no setor de limpeza e construção civil. Quando as coisas pareciam que estavam se engrenando, a vida lhe preparou uma falseta: o mineiro caiu doente e ficou de molho por cerca de dois meses. Como ajudante de pedreiro na reforma de uma casa, ele se sujeitou a trabalhar sem botas de segurança. O resultado: o cimento lhe esfolou os pés de tal maneira que ele teve que voltar carregado para casa. Sem documentos, com medo de procurar socorro em hospitais, Douglas, os pés em carne viva, convalesceu sozinho, comprando remédio e pagando médico particular do seu próprio bolso.
Atualmente, Douglas, com 21 anos, já recuperado do acidente de trabalho, divide uma minúscula edícula com um outro português na cidade de Morangis, também na periferia de Paris. Ele continua trabalhando como servente de pedreiro durante os sete dias da semana, de sol a sol, e consegue tirar por volta de 1,8 mil euros mensais. Tirando as despesas com aluguel, alimentação e transporte, levando uma vida regrada de monge, ele não diz, mas deve economizar mais de mil euros por mês.
A falta dos tais ''papiers'', a única coisa que põe uma pequena ruga no rosto de Douglas, talvez seja solucionada com um possível contrato de trabalho que ele tenta conseguir. Confiante na sua estrela, magro (não por falta de comida, como ele logo se explica, mas pelo ritmo de trabalho), queimado de sol, ele sonha e tece planos: ''Quero ter uma vida normal, uma casa, um carro, uma família, nada de extraordinário.''(M.B.)

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